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“Roberto Albergaria foi uma daquelas pessoas únicas que nos desafiam a compreender a natureza humana. Ainda jovens, fomos colegas no Colégio Central da Bahia, no ultimo triênio dos anos sessenta, quando a juventude de todo o mundo  saia às ruas para se colocar do ponto de vista político e ideológico, o que em nosso país significava, também, posicionar-se contra a ditadura militar que usurpara nossa liberdade de expressão.  A partir de 1970 cada um de nós seguiu seu próprio caminho com o ingresso como estudantes na UFBA. Sua figura alta, magra e meio “desengonçada”, sempre foi muito marcante, a isto somava-se um sorriso permanente, irônico e sarcástico, amigável, contudo!… Só nos reencontramos nos anos oitenta como professores no Departamento de Antropologia e Etnologia da UFBA, momento em que tomamos conhecimento das trajetórias individuais que nos fizeram optar por sermos antropólogos ao invés de bacharéis em direito. Exilado por cerca de 9 anos, Roberto Albergaria esteve na França onde exageradamente, como tudo que sempre fez,  doutorou-se em História e Antropologia, trazendo esta bagagem de conhecimento e sua iconoclastia para a academia. Fascinava os jovens estudantes, com os quais estabelecia relações intelectualmente desafiadoras e envolventes. Aqueles o idolatravam no mais completo sentido do termo. Salas de aula sempre cheias, provocações, reações passionais de ambas as partes. Mesmo sem falar arrancava  reações de quantos o ouviam, risos fora do tom acompanhavam suas ironias. Acredito que tenha sido um dos intelectuais mais sérios e refinados de nossa geração e mestre do disfarce. A doença que acabou por levá-lo a morte o atormentava desde a infância, o que o levou a criar um personagem que muito pouco conferia com a pessoa delicada, afável, séria e amorosa que foi.  Em nossa última conversa por telefone ele deixou transparecer seu desinteresse de continuar a viver. Mesmo assim, veio como surpresa telefonema esta manhã que informava a gravidade de sua situação e confirmação de seu falecimento no início da tarde. A morte o encontrou em casa, só, como sempre viveu e se escondeu de todos para deixar o personagem livre.”

Por professor Carlos Caroso