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Participantes do Fórum Permanente das Sociedades Científicas Associadas à SBPC realizado no dia 20 de março, apontaram temas preocupantes nas áreas de educação, pós-graduação, política, ciência, tecnologia e inovação em 2018 e sugestões para ações. Entre os tópicos levantados está a falta de recursos para bolsas de pesquisa, a valorização da área de ciências humanas e sociais aplicadas e mudanças nos critérios das avaliações do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG). O encontro, realizado na sede da SBPC em São Paulo, contou com representantes de cerca 80 sociedades científicas de todo o País.

As preocupações foram levantadas após as apresentações de Marcelo Morales, diretor do CNPq, Geraldo Nunes Sobrinho, diretor de programas e bolsas no País da Capes, Jorge Audy, coordenador da Comissão Especial de Acompanhamento do PNPG 2011-2020 da Capes, e Fernando Nielander Ribeiro, representando a Presidência da Finep, que apresentaram um panorama atual dos organismos e os planos para 2018 (leia mais aqui).

Maria Juracy Filgueiras Toneli, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (Anpepp) e professora da área de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), questionou a posição oficial do CNPq sobre as ciências humanas e sociais aplicadas. Segundo ela, a área tem participação ínfima do orçamento do órgão. “Quando eu era coordenadora do CNPq, uma das discussões que caminhou bastante foi a criação da diretoria especifica de ciências humanas e sociais aplicadas. Essa discussão ficou parada. Mas, em tempos de vacas magras, fica claro que o mercado só compra aquilo que parece destacar. Produtos. É tradição das humanas ter dificuldade de vender produtos no mercado. Nós fazemos outro tipo de análise. Se falou muito a necessidade de parcerias. As outras áreas produzem, mas as humanas têm capacidade de ensinar como atingir a população. Infelizmente, não somos prestigiados”, afirmou.

Luciano Mendes, da UFMG e coordenador do Fórum de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (FCHSSA), também concordou que a área de ciências humanas e aplicadas tem tratamento diferenciado das agências. “Quando eu estava no CD (Conselho Deliberativo do CNPq), nos reuníamos de forma sistemática para produzirmos políticas de ciências humanas aplicadas. Essas políticas não saíram do papel. A gente questionou e não tivemos resposta. Queremos criar diversas ações estruturantes, já que os editais diminuíram”, afirma. Mendes também chamou a atenção para desequilíbrios no tratamento do CNPq com determinadas áreas. “É preocupante porque a área de ciências humanas e aplicadas representa 38% da comunidade de ciência, tecnologia e inovação. Queremos ter maior participação na discussão dos projetos estruturantes do CNPq”.

Orçamento

Hernandes Carvalho, presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Biologia Celular (SBBC), destacou a necessidade de ampliar, nos próximos anos, a capacidade de execução dos INCT´s, que estão muito ‘capengas’. “A alegria de quem coordenada um INCT é só na hora da aprovação, porque, por causa da inflação, valorização do dólar e de cortes de 30% no orçamento, fica difícil executar algo. Acredito que haja necessidade de se financiar mais projetos”, disse.

Carlos Eduardo Belz, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e representante Sociedade Brasileira da Zoologia (SBZ), acrescentou que também é importante pressionar para que saia em 2018 um novo edital do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), já que o último foi em 2013.

“A ciência brasileira merece muito mais abundância de recursos, mas, também, bons projetos”, ponderou Luiz Carlos P. Silva, secretário de relações institucionais da Sociedade Brasileira de Automática (SBA).  Ele citou o exemplo do programa de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) no setor de engenharia elétrica, coordenada pela Aneel, onde sobram recursos. “São R$ 500 milhões por ano, nesse programa”, destacou. Silva sugeriu que o CNPq promova articulações com outras agências para viabilizar programas como este em todas as áreas, mas ressaltou que também é preciso estimular os pesquisadores para que desenvolvam projetos com maior qualidade.

Repensar o sistema de pós-graduação

Outra questão debatida foi a avaliação da Capes dos cursos de pós-graduação. A presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), Deisy de Souza, se disse preocupada com a distribuição dos conceitos da última avaliação, no qual 70% dos cursos foram classificado dentro das médias 3 e 4 ( o conceito máximo é 7). “A nossa pós-graduação não é boa? Ou precisamos rever essa avaliação?”, questionou.

Já o presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), Aldo Zarbin, problematizou o número de bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ), que, conforme disse, estão achatadas. “Existem pessoas que poderiam e queriam entrar nesse sistema e não estão conseguindo”, afirma. Ele também criticou a falta de orçamento para projetos novos. “É decepcionante ver isso”, lamentou.

Ao falar de bolsas, Sérgio Muhlen, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB), chamou a atenção para a continuidade de programas de internacionalização da Capes, que ficaram um pouco esquecidos durante o Ciência sem Fronteiras.

Para o diretor de relações internacionais da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Flávio Franco, a situação da pós-graduação no Brasil hoje é alarmante. “Muitas pós-graduandas e pós-graduandos estão sem bolsas para continuar suas pesquisas e suas produções científicas e muitos programas estão sem investimento nos laboratórios, sem material entre outros. Precisamos apresentar essa situação caótica que se encontra todo o processo de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação que estão nas universidades a partir dos programas de pós-graduação”, afirmou.

Franco criticou ainda o Programa Institucional de Internacionalização da Capes (Capes Print), lançado em novembro de 2017. “Neste edital são destinado R$ 300 milhões para 40 projetos. Essa iniciativa vem na contramão do que nós debatemos, é uma hierarquização e elitização dos centros de pesquisa e dos programas na academia. Muitos programas do norte e nordeste serão penalizados pela perspectiva de que os programas categorizados no âmbito da Capes com nível de excelência acadêmica se encontram no sul e sudeste. Precisamos de um esforço conjunto para descentralizar os investimentos desse edital”.

Luciano Mendes, do FCHSSA, reforçou que há um desequilíbrio no sistema como um todo e que é necessário repensá-lo. “Devemos discutir políticas de pós-graduação e propor uma remodelação do sistema. Não é possível a Capes dizer que não tem como pensar no crescimento desse sistema. Temos também que refletir sobre uma avaliação que faça sentido, pois isso impacta a distribuição dos recursos”, concluiu.

Fonte: Vivian Costa – Jornal da Ciência
Foto: SBPC