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“Queremos uma educação que possa chamar golpe de gole, e ditadura de ditadura”, essa foi uma das frases ditas pela Ouvidora-Geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia, Vilma Reis, durante o segundo debate sobre a militarização da educação promovido pela Apub Sindicato. O evento aconteceu no final da tarde de ontem (4) no auditório João Gonçalves da UFBA, em Ondina. A segunda edição do debate, que aconteceu pela primeira vez em outubro do ano passado (saiba mais), volta ao centro das discussões sobre os rumos da educação pública após, há poucos dias, ter sido anunciada pelo governo do estado como possibilidade para, supostamente, sanar os problemas relacionados à violência no âmbito escolar e ao baixo aprendizado dos estudantes.

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Ainda durante sua fala, Vilma ressaltou a importância de compreender as diferentes realidades e necessidades dos alunos das escolas públicas, que sofrem com a falta de recursos básicos, e afirmou que esses problemas não se resolvem militarizando o ensino, além disso, destacou que a juventude negra e periférica é quem mais sofrerá com esse processo, tendo em vista a forma como são tratados pelas autoridades policiais no cotidiano.

A atividade contou também com a participação d Valquíria Borba, professora do Departamento de Educação (UNEB), do educador e militante Walter Takemoto (Frente Esquerda Unida/Frente Brasil Popular-Bahia) e da professora Andrea Hack (Letras/UFBA), que mediou a mesa. Valquíria usou da sua experiência como diretora e professora em diversas escolas públicas para criticar as prioridades que o governo vem estabelecendo em relação a educação. “As escolas não possuem sequer um banheiro limpo, nem muito menos merenda e infraestrutura digna para os alunos aprenderem e se sentiram motivados a ir para as aulas, mas ao invés de resolverem isso eles estão falando de militarização?”. A professora acrescentou dizendo que o método padronizado dos colégios militares não vai se encaixar nos alunos das escolas públicas, que são diversos e necessitam de abordagens que abracem o repertório cultural de cada um deles. “Falar de militarização é um equívoco ideológico, metodológico e educacional”, finalizou.

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Já Walter Takemoto iniciou sua contribuição citando o quão significativo é falar sobre militarização justamente no dia em que um general do Exército fez ameaças de intervenção através do twitter. Walter usou desse e de outros fatos, como as chacinas policiais que matam jovens nas favelas e a execução da vereadora Marielle Franco, para mostrar que esse processo de militarização vai além da educação e está se materializando em diversas outras instâncias sociais, o que reforça a necessidade do debate.

O militante também discorreu a respeito do processo de aceitação social da proposta, idealizada pelo superintendente de política para educação básica da Secretaria Estadual da Educação (SEC), Ney Campello. De acordo com Walter, os próprios alunos do Colégio Leonor Calmon, localizado em Cajazeiras, debateram e votaram contra a militarização da escola, no entanto, Ney insistiu e convocou uma nova votação em plenária, dessa vez sem debate, e mesmo assim os alunos votaram unanimemente contra a proposta. Apesar disso, o colégio foi militarizado.

Walter aproveitou também para criticar a declaração do secretário de educação quando afirmou que a escola militar era melhor que a escola pública. “Para mim, quando um secretário de educação fala isso ele deveria automaticamente se demitir, porque ele está assumindo que não foi capaz de executar o papel social do seu cargo, que seria fornecer educação de qualidade. Ele está afirmando que a escola pública, a qual ele é o responsável, é ruim”, declarou.

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Os convidados da mesa ainda discutiram sobre a legitimidade da proposta, já que nenhum professor foi consultado durante a formulação da mesma, e também sobre as limitações de conteúdo e abordagens abusivas e violentas das escolas militares que já foram relatadas por diversos alunos. Algumas delas podem ser encontradas na página/grupo do facebook No Meu Colégio Militar.

Ao final da mesa, os estudantes, professores e representantes de entidades presentes expressaram suas opiniões e até mesmo alternativas mais efetivas para a melhoria do ensino público.

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