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Docente da UFBA e pesquisador na área de mobilidade sustentável, o professor Juan Pedro Delgado conversou com a Apub sobre o assunto

Encurtar distâncias, integrar pessoas, promover uma mudança cultural, articulando mobilidade, sustentabilidade e redes de solidariedade são alguns dos princípios que perpassam o conceito de mobilidade sustentável. Pesquisador na área, coordenador do CETRAMA – Centro de Transporte e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFBA e professor do programa de pós-graduação em Engenharia Civil (PPEC/UFBA), Juan Pedro Moreno Delgado conversou com a Apub sobre questões relacionadas ao conceito e os desafios da mobilidade urbana, especialmente em Salvador. Para o docente, políticas de mobilidade eficientes devem considerar a topografia do lugar, hábitos e costumes, novas tecnologias, a superação da cultura do automóvel e também a necessidade de maior equidade social na construção de cidades inteligentes.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista: 

MOBILIDADE SUSTENTÁVEL

“Existem vários conceitos para mobilidade sustentável, mas nós dizemos que ela seria uma integração de 3 grandes políticas: 1) a política de transporte, que são tecnológicas, 2) as políticas de circulação urbana, que são mais espaciais, e 3) a política de desenvolvimento urbano. A integração dessas políticas irá favorecer, ao longo do tempo, uma maior equidade social, uma maior eficiência econômica, e um maior respeito pelo meio ambiente. Nós necessitamos o quanto antes dessa visão sistêmica e integrada da mobilidade urbana sustentável e, a partir dela, nós podemos fazer intervenções que se ajustem melhor às necessidades da nossa cidade; projetos, programas, intervenções de mobilidade urbana que se preocupem em alcançar os grupos sociais mais vulneráveis.

Os grupos sociais mais vulneráveis na mobilidade são os pedestres, em primeiro lugar, as pessoas com necessidades especiais, em segundo, as mães e crianças, e também temos os ciclistas, que lutam para ter uma mobilidade mais sustentável, mas a cidade moderna que construímos não favorece isso. Esse é o grande desafio no curto prazo, pois esses grupos sociais até são mais numerosos, e produzem um volume maior de viagens na cidade, mas não são considerados nas políticas públicas. Temos políticas públicas de mobilidade que não são sustentáveis porque estão fortemente orientadas para os veículos e em alguns casos, até para o veículo individual.

Nós temos que gerenciar essa infraestrutura e mudar a pirâmide da mobilidade, na qual o primeiro lugar é sempre ocupado pelo automóvel, ou seja, precisamos de políticas públicas que diminuam o uso do automóvel, já que eles causam grandes impactos econômicos e ambientais, e incentivaríamos que as pessoas migrem dos automóveis para meios de transportes mais sustentáveis. Os gestores precisam entender a importância da mobilidade sustentável e o papel dela na construção de cidades inteligentes, mais equitativas, menos poluentes, onde as pessoas possam construir laços de solidariedade.

A tecnologia tem um papel importante nisso, pois ela pode aproximar pessoas, entretanto não estamos utilizando-a da maneira mais inteligente.”

POLÍTICAS SOCIAIS

“Um dos princípios fundamentais da mobilidade sustentável é que dentro dela existe uma relação entre o transporte e o uso do solo, ou seja, as atividades urbanas. O sistema de transporte não existe sozinho, ele aproxima as pessoas. Então, a política de transporte tem que estar articulada com a política social. Por exemplo, se estamos implementando um programa habitacional público, este programa precisa estar próximo das estações de transporte da cidade, e isso não está ocorrendo. Então, com recursos públicos, estamos fazendo um urbanismo que cria distâncias. A tendência no mundo é o contrário, é um urbanismo que aproxime as pessoas, que encurte as distâncias, e as redes de transporte são mais eficientes nesse contexto. Construir uma rede integrada de transporte, implica também em repensar algumas culturas urbanas, menos sustentáveis – pensar na cultura do shopping center, na cultura do condomínio fechado – e saber localizar os programas habitacionais públicos, inclusive a proximidade destes com o Centro Histórico de Salvador. Neste aspecto, a mobilidade sustentável pode construir relações mais humanas. É necessário se preocupar em distribuir a acessibilidade produzida pelo sistema de transporte de uma forma homogênea.”

SALVADOR: TOPOGRAFIA COMPLEXA

“Uma grande dificuldade que observamos aqui no grupo de pesquisa é que existe pouca compreensão da topografia da cidade, ou seja, até pouco tempo todo mundo estava pensando em ideias e projetos como se Salvador fosse uma cidade plana. Entretanto, estamos descobrindo que a insegurança e o elevado uso do automóvel estão associados à topografia difícil da cidade. Não compreendemos isso oportunamente, não temos projetos. Fundamental seria, por exemplo, copiar o que já existe, o que deu certo no passado. Nós temos o Centro Histórico de Salvador que funcionava muito bem com planos inclinados, elevadores… que ainda funcionam, mesmo não sendo uma tecnologia tão sofisticada, os elevadores e planos inclinados, no passado, estavam mais articulados com o bonde. Entretanto, nós criamos viadutos, avenidas, tudo para os automóveis, e com esses projetos só amplificamos a distância entre os moradores e a cidade: esta cidade tão cheia de colinas continua desconectada.

Eu considero, particularmente, importantíssimo nós termos uma política pública em Salvador para o transporte vertical. Precisamos de políticas preocupadas em localizar de maneira inteligente, eficaz, uma rede de planos inclinados, elevadores, que estejam integrados com o transporte público. Isso poderia mudar de forma ampla os padrões de mobilidade da cidade, e inclusive poderia diminuir o uso dos automóveis. Eu acho que é urgente começarmos por aí, pois os usuários do metrô percebem essa desconexão da cidade e não só pela topografia, mas também pelas relações sociais e econômicas que fazem de Salvador uma cidade fortemente segregada. Mobilidade sustentável para Salvador significa também mudança social, por isso é preciso investir nisso de forma muito cuidadosa.”

O METRÔ E AS ÁREAS DE INFLUÊNCIA

“O metrô está reestruturando uma rede de transportes consolidada, muito antiga. Se nós analisarmos, as linhas de transportes mais antigas surgiram na década de 60, ou antes, e a cidade evoluiu e mudou muito. O metrô está forçando a construção de uma nova racionalidade das linhas coletivas de ônibus de forma que tenhamos linhas de ônibus mais curtas, mais diretas, na procura de uma estação de alta capacidade, eficaz, como uma estação de metrô.

Eu sou otimista, eu acho que o metrô, em muito pouco, tempo estará entrando em uma fase de consolidação (300 mil passageiros diários). É uma realidade que está reestruturando não só Salvador, mas também a região metropolitana.

Mas aí aparece um problema de implantação e de conceito enquanto mobilidade sustentável. Com a chegada do metrô percebemos que existem grandes dificuldade para a implantação de um sistema bimodal. Integrar apenas dois modos de transporte, o ônibus e o metrô juntos, já está sendo um problema. Entendo que é parte do processo de gestão, mas a tendência no mundo lá fora é que a mobilidade urbana está sendo construída através de estações multimodais. Apesar das estações de metrô estarem suspensas, elas precisam ser repensadas. Porque eu tenho que chegar ao metrô a pé, de bicicleta, de Uber, de táxi, de várias formas além de ônibus, ou seja, estamos falando de passarelas, de planos inclinados, de elevadores, de ciclofaixas, estamos falando de um conjunto de infraestruturas, de estacionamentos, de novas tecnologias. As redes multimodais se configuram como esses nós, como redes que se integram, se reforçam e se apoiam umas nas outras.

Nós temos estações de metrôs que ficam isoladas. Entrevistamos algumas pessoas e elas disseram que várias estações são inseguras, principalmente para as mulheres à noite, ou seja, isso mostra que as passarelas estão conectadas a lugar nenhum.

Toda estação de metrô, em uma área de influência de 500 metros, no mínimo, tem que ser reconfigurada e repensada. Isso é um desafio do sistema de transporte e do urbanismo também. A estação de metrô, quando bem pensada, cria uma nova lógica operacional na cidade. Existe uma integração física e uma integração operacional para que o ciclista que alugou a bicicleta chegue a tempo e faça sua viagem com destino UFBA, ou com destino centro da cidade, para que aquela pessoa que você deu uma carona seja deixada confortavelmente para seguir a viagem de metrô… Isso propõe uma lógica inteligente, de uma cidade inteligente na qual as pessoas otimizam os recursos e ganham tempo. Nós temos que transformar o espaço, para mudar as relações temporais. As áreas de influência das estações de metrô precisam ganhar essas mudanças.

O metrô é a porta de entrada para a mobilidade sustentável no caso especifico de Salvador. A construção dessas redes integradas é um esforço de gestão, deveria ter uma autoridade metropolitana da mobilidade que faça aquele mesmo processo que o Ministério Público está forçando que aconteça, aquela integração. Os impasses entre as concessionárias, as empresas de ônibus, o Governo do Estado, a prefeitura, o setor imobiliário, o setor comercial e de serviços, precisam ser resolvidos o quanto antes. São fatores que fazem com que todo mundo ganhe com o metrô funcionando bem. E o ideal seria que o metrô se agregue a uma rede mais extensa, que nos leve a Candeias, Simões Filho, Camaçari, Dias D’Ávila, que são os polos industriais metropolitanos.”

AS POLÊMICAS DO BRT

“O BRT causou muita polêmica, eu e outros especialistas da área de mobilidade não concordamos com a proposta do BRT. Ele é necessário, e é oportuno termos um BRT que alimente cos passageiros a região do metrô em Iguatemi, mas existe um grave problema na concepção desta infraestrutura, pois [na proposta] são duas faixas para o BRT e as outras quatro para os automóveis e isso preocupa todo mundo porque pode reforçar a cultura do automóvel na cidade. Um projeto com essas características vai produzir mais poluentes.

Em outros países e no Brasil, os usuários dos automóveis estão deixando de usá-los para utilizar o BRT, que oferece, segurança, conforto e velocidade. Mas se eu coloco um BRT com vias expressas de ambos os lados, não é um projeto BRT, é um projeto híbrido como muitos já colocaram. Esse é o grande problema na concepção desse projeto. Existem estudos científicos que mostram que muito dificilmente quem utiliza automóvel consegue retornar ao transporte público. Evidencia-se uma política pública que incentiva o uso do automóvel, ao passo em que a tendência lá fora é o desincentivo do uso do automóvel através das políticas de circulação, de estacionamento e financiamento. Algumas dessas políticas são aplicadas em cidades do Brasil. Em Salvador não há nada disso, continuamos criando espaços de circulação para os carros. Por isso esse projeto é tão polêmico e por isso é tão rejeitado pelas diversas áreas de conhecimento aqui na UFBA”.

O PAPEL DA UNIVERSIDADE

“A universidade tem um papel fundamental, inclusive, a mobilidade sustentável começou a ser aplicada nas universidades, para criar uma nova cultura e novos multiplicadores desta ideia. Por conseguinte, aqueles profissionais formados nos últimos 20 anos, começam a construir uma cultura de mobilidade que assimilaram na universidade. Até porque a universidade é o território das inovações, não só da democracia, da liberdade e da autonomia, mas também das inovações.

O papel que todos nós aqui temos na UFBA é muito importante, ás vezes somos ouvidos, ás vezes não, mas a luta continua. No momento, junto à reitoria, estamos trabalhando com professores do departamento de transporte, as políticas de mobilidade sustentável para a UFBA e também apoiando um novo sistema de mobilidade, para o BUZUFBA, através de planejamento de rotas e aplicativos que podem ajudar o estudante. Queremos também uma maior aproximação com a gestão municipal, para que o sistema de transporte público também atenda melhor a cidade e a UFBa, ou seja, se aproxime mais do estudante, com maior frequência, rotas mais inteligentes.

Estamos trabalhando também com alguns estudos para a melhoria do estacionamento nos campi da UFBA, porque não precisamos criar áreas de estacionamento, edifícios de estacionamento, pelo contrário: nós temos que racionalizar o uso do estacionamento, criar uma cultura de solidariedade, e aplicar os conceitos de gerenciamento da mobilidade para nos constituir como um polo de inovação. Esses são os trabalhos que realizamos e acho que a Apub também é importante nesse processo, divulgando e estando junto a nós, porque se queremos mudar nossa cidade, podemos começar com nós mesmos. É importante levarmos todas essas novas ideias para o cidadão soteropolitano e é aí que contamos com apoio da Apub também.”