Ontem, 23 de janeiro, o deputado federal Jean Wyllys do PSOL, anunciou que não assumirá o mandato para o qual foi eleito pela terceira vez e que deixará o país. A renúncia ao cargo é uma decisão pela vida e pelo seu direito de viver tranquilamente, já que o deputado tem sido ameaçado de morte e vem sofrendo calúnias e difamações há alguns anos, por conta de sua atuação em defesa dos direitos da população LGBTTI e das outras minorias políticas. Quem assumirá a vaga é o suplente David Miranda, que foi vereador do Rio de Janeiro, é “preto, favelado e gay”, como se define.

Desde a execução da vereadora Marielle Franco, sua amiga ecompanheira de partido, e do motorista Anderson Gomes, as ameaças à Wyllys se intensificaram. Em novembro de 2018, a Comissão interamericana de Direitos Humanos da OEA cobrou do Estado brasileiro ações efetivas, através de Medida Cautelar, para proteção do parlamentar, que tem vivido sob escolta policial.

A comemoração do presidente Jair Bolsonaro, em resposta ao anúncio do deputado, nos deixa mais indignados ao constatar seu escárnio e sua irresponsabilidade como chefe de estado, mas também em sentir que estamos cada vez mais próximos do passado de exílios, perseguições e morte para aqueles que lutam.

Tudo isso traz à tona as fragilidades da nossa Democracia e materializa o que nós, movimento sindical e social, vimos denunciando há algum tempo: o risco real do conservadorismo, do autoritarismo e da ascensão das ideias fascistas no Brasil. E, por isso, Jean Wyllys é, sem dúvida, um exilado político e seu medo de ser assassinado não é infundado. Afinal, somos também um dos países que mais mata LGBTTIs, mulheres e defensores dos direitos humanos, atributos que eram também de Marielle.

Lembremo-nos ainda de que esta conjuntura política já fez outras vítimas, de morte e de exílio. A professora e pesquisadora da UNB, Débora Diniz, que estava no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo Federal, deixou o país no final do ano passado devido às ameaças e agressões sofridas por ser atuante na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Essa realidade se mostrou já muita próxima de nós em 2017, quando a professora Maíra Kubik e outras docentes do NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher) receberam ameaças semelhantes.

Como sindicato que atravessou períodos difíceis da história, nosso alerta é, acima de tudo, um chamado à organização, resistência e luta.