Jornal da Apub I Entrevista: Reescrevendo a História

A História do racismo brasileiro confunde-se com a própria História do Brasil. É justamente no processo de formação do país que encontramos a gênese dos imaginários e estruturas racistas que afligem as vidas de negros e negras até hoje. A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira foi criada em 2010 com um projeto inovador que busca reverter essa lógica. Para explicar um pouco mais desse projeto e pontuar os desafios da atual conjuntura, a Apub conversou com a professora Mírian Reis, diretora do Campus dos Malês da UNILAB, em São Francisco do Conde (BA).

APUB: Qual o projeto da UNILAB e o que ele representa nesta conjuntura de ataques à democratização da educação no Brasil?

Mírian: A UNILAB foi criada em 2010, é uma universidade jovem. Ela é fruto de um movimento progressista de expansão do ensino superior a partir do Reuni. Esse movimento de expansão visava levar para o interior o ensino superior e não é à toa que a UNILAB é uma das universidades que estão em cidades do interior, mas com um projeto diferenciado, pensando em uma aproximação e cooperação científica e acadêmica com os países africanos de língua portuguesa. Ao estreitar as nossas relações com a África, a partir do fazer acadêmico, o Brasil está também fazendo uma reparação de toda uma triste história relacionada ao tráfico de africanos para nosso país. Temos uma sede em Redenção, no Ceará, a primeira cidade do país a abolir o tráfico de pessoas escravizadas, mas na Bahia ela está em São Francisco do Conde, no coração do Recôncavo baiano, que é um território muito marcado pela presença das pessoas negras descendentes de africanos. De forma geral, nos propomos a ser uma instituição que reescreve a história dos povos africanos no Brasil, promovendo uma travessia que traz jovens para aprender e nos ensinar, trabalhar conosco em uma perspectiva de cooperação.

APUB: Qual a contribuição da UNILAB para o debate sobre o racismo e desigualdade no país?

Mírian: Quando a gente pensa em reescrever a história dos africanos e africanas no Brasil a partir da produção cientifica e do conhecimento, a gente também traz para frente da cena a discussão do racismo que no Brasil é estrutural e que está aí todos os dias nos mostrando que há muito o que fazer. A UNILAB é fruto de uma pressão dos movimentos sociais negros no momento em que o Brasil tinha um Ministério que falava da promoção da igualdade racial, um movimento progressista, pois era necessário comprometimento com políticas de reparação e promoção de equidade. Então a UNILAB, como fruto desses movimentos, tem como pauta o combate do racismo e isso está dito nos projetos de pesquisa que desempenhamos aqui, nos nossos currículos. Os projetos políticos e pedagógicos dos cursos que nós temos possuem um olhar diferenciado para a questão étnico-racial que contemple história, cultura africana e afro-brasileira, mas a gente também traz a valorização de saberes e conhecimentos que são transportados desse contato com a África. É daí que vem a importância de defender a UNILAB enquanto projeto acadêmico que se executa a partir de uma conexão entre o Brasil e a África lusófona, e no sentido de reescrever as epistemologias que estão aí colocadas para nós, de combater e confrontar os discursos hegemônicos que buscam sempre colocar os povos negros em posições de subalternidade.

APUB: Quando falamos de políticas de “inclusão” e democratização na universidade, geralmente pensamos no acesso, especialmente dos e das estudantes. Você acredita que a UNILAB contribui para alargar esses conceitos, em termos de abrir espaço para outros saberes?Mírian: Um dos maiores desafios para a interiorização é conquistar a permanência dos estudantes na universidade. É preciso pensar como garantir que eles tenham condições mínimas de estudo, e isso é um desafio muito grande com os sucessivos cortes que o Programa Nacional de Assistência Estudantil está sofrendo. O auxílio estudantil é indispensável para manter na universidade estudantes de baixa renda, que vêem de outros municípios, estados e países e que enxergam na universidade a sua oportunidade de emancipação. Fazemos um esforço muito grande para que todos possam ser contemplados em programas de auxílio, embora a gente não tenha uma cobertura total, temos uma bastante ampla de brasileiros e africanos, a gente faz um investimento grande para a atração de estudantes em editais específicos, inclusive temos muita satisfação e orgulho em dizer que uma universidade tão jovem tem em seu corpo discente quase 90 estudantes quilombolas. A gente defende que o próprio quilombola esteja na universidade e faça do seu conhecimento parte da sua pesquisa e nos ensine também, pois entendemos que os nossos saberes acadêmicos se complementam e se enriquecem no diálogo e na condução partilhada com nossos estudantes africanos e brasileiros, quilombolas, indígenas, ciganos, LGBTs. Não é fácil, não é simples lidar com todas essas diferenças. Hoje temos um corpo docente muito comprometido com nosso projeto e, de um modo geral, as pesquisas estão afinadas com a nossa missão de manter a solidariedade entre os povos, respeitando as pluralidades de culturas e saberes. Essa é a nossa UNILAB, é o que fazemos todos os dias, a despeito dos cortes de recursos, das dificuldades de infraestrutura, mas que resiste, pois a gente acredita que trazemos conosco um legado e uma ancestralidade que nos sustenta e isso está muito ligado com a África, com a lusófona, com a África contemporânea, com a África que está lá no continente africano, mas também com a África da diáspora.                                  

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