Apub discute sofrimento mental e promoção da saúde na Semana Docente

A saúde docente, especialmente ligada à questão mental, foi o tema do debate ontem (12) como parte da agenda da Semana Docente Apub. A presidente do sindicato Raquel Nery abriu a conversa alertando sobre a urgência de tratar do assunto e pensar o papel do sindicato como promotor também de saúde, principalmente neste contexto político e social de retrocessos e ameaças, que levam ao agravamento do sofrimento mental.

A psicóloga Marta Macedo, que atua no PSIU – Universidade, Saúde Mental e Bem-estar da UFBA, programa de acolhimento e promoção da saúde mental voltado para toda comunidade universitária.  “O objetivo é oferecer uma escuta nesse momento de crise”, define Marta. Criado em abril de 2017, o PSIU é uma resposta às inquietações da universidade sobre o que fazer com o mal-estar da sua comunidade, porém o setor que aderiu de fato ao programa foi o corpo discente.

Cenário semelhante acontece na UFMG, como foi relatado por Maria Stella Goulart, psicóloga e docente que pesquisa e acompanha as políticas de saúde mental na Universidade e presidenta da APUBH. Essa ausência de servidores nos programas é, na verdade, o que ela chama de encobrimento e subnotificação dos casos de sofrimento mental dessas trabalhadoras e trabalhadores. “Há uma dificuldade enorme de se expor”, afirma a professora.

A despeito da ausência dos dados exatos, para Stella é fundamental pensar a conjuntura: “Como o MEC tem impactado a vida docente e produzido sofrimento?”, ela questiona retoricamente, apontando a crescente intimidação, assédio moral, ataque à ciência, censura da atividade docente, além da ameaça de desconstrução institucional e perda de autonomia das IFES. Além disso, a política do governo traduz um cenário mundial do “ethos” ultraneoliberal e do aprofundamento do capitalismo, que promovem exclusão social, negação dos direitos humanos, fascistização e recolonização, e ainda, do ponto de vista das relações sociais, a hipercompetição, o individualismo, a cronofagia – monetização da vida subjetiva, a captura da nossa atenção, o roubo do tempo, das ideias, do tempo de sono e reflexão. Isso tudo, indubitavelmente, gera o agravamento dos sofrimentos e transtornos mentais.

Stella expôs ainda algumas razões que incidem no tensionamento das/os docentes – retração dos investimentos em pesquisa, equipes desconstruídas, perda de bolsas, ameaça à carreira e de diminuição de salário, precarização do acesso à previdência social, entre outros pontos. “A situação nas nossas IFES é de devastação”, denuncia. Aliado a isso, sobretrabalho com destaque para os esforços adjacentes para sobrepor as incertezas relativas à produção científica, retrabalho e trabalho extra, sem gozo pleno de férias e folgas.

“Nós temos que pensar o sofrimento como uma oportunidade para refletir, ele comunica algo da esfera individual, mas também da esfera coletiva. Aponta para o tema da saúde e da qualidade de vida, e vai além do diagnóstico psiquiátrico estimulando a atenção ao cotidiano dos docentes. Nós temos uma pauta de trabalho, eu vim fazer esse convite a vocês”, provoca Stella.

Em seguida, Adriana Lima, assistente em Administração da Maternidade Climério de Oliveira, apresentou o resultado de sua pesquisa de mestrado pelo ISC/UFBA acerca das concepções e práticas de saúde na UFBA. Ela partiu da problemática da saúde como direito e o papel da Universidade como promotora de saúde, buscando contribuir com a ampliação do conceito de saúde em relação ao modelo assistencialista, que atualmente é o prevalecente, e no aprimoramento do sistema, buscando incidir sobre questões de condições de vida e trabalho, ambiente relacional, defesa dos direitos humanos e ampliação da consciência sanitária para a comunidade e  sociedade.

Por fim, Aparecida Tupiniquim, enfermeira do SMURB/UFBA e também mestra pelo ISC/UFBA, apresentou sua pesquisa sobre a Política de Atenção à Saúde e Segurança do Servidor Público Federal (PASS), que está sob ameaça de extinção no bojo dos ataques aos servidores/as. O estudo partiu da análise de dados de adoecimento e absenteísmo no funcionalismo público e suas principais causas, entre as quais prevalecem os transtornos psíquicos e distúrbios musculoesqueléticos. A política tem lacunas em suas proposições, mas, em face das ameaças de sua extinção – como a MP 922 que trata das contratações e outros assuntos referente ao serviço público – Aparecida ressalta sua importância e a luta pelo seu aprimoramento.

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