Escândalo Prevent Senior expõe os perigos da privatização da Saúde

Escândalo Prevent Senior expõe os perigos da privatização da Saúde

O acesso à saúde é um direito garantido pela Constituição e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), regulamentado pela Lei Orgânica nº 8.080/1990.

Embora mais de 80% da população brasileira depende exclusivamente da saúde pública, o setor também se tornou fonte lucrativa para grupos econômicos que se aproveitam de brechas para lucrar, e nem sempre com ética.

Mas de todos os escândalos já vistos envolvendo a saúde privada, o caso envolvendo a operadora Prevent Senior é, provavelmente, o maior, e uma prova cabal de que a saúde nunca deveria ser tratada como mercadoria.

Abominável. Estarrecedor. Execrável. Desprezível. Repugnante. Faltam adjetivos para expressar o que a operadora fazia ao usar pacientes como cobaias de experimentos no teste de medicamentos comprovadamente ineficazes no combate à Covid-19, segundo relato de médicos à CPI da Covid-19.

Enquanto o SUS e seus profissionais salvavam vidas durante a pandemia, a empresa paulista transformava suas UTIs em verdadeiros laboratórios de testes, nos quais os pacientes-cobaias recebiam tratamentos sem eficácia sem serem consultados, muitas vezes pagando com suas vidas.

Mais do que a crueldade dos empresários paulistanos que dirigem a Prevent Senior, o modelo expõe o que acontece quando deixamos serviços públicos, e direitos, nas mãos da iniciativa privada. Ou alguém imagina que as práticas da Prevent Senior seriam possíveis no SUS?

Negacionismo + lucro

“Quando percebemos que o tratamento precoce evitava internações, ficamos eufóricos, dissemos: aqui tem uma esperança”, declarou um dos fundadores da Prevent Senior em uma entrevista à Folha de S.Paulo.

Primeiro, é necessário ignorar aqui a mentira de que o tal “tratamento precoce” reduzia o número de internações, o que não é verdade e o número de mortes nas unidades da Prevent Senior comprova isso.

Segundo, isso mostra que a preocupação do gestor do plano de saúde era financeira. Em se tratando de um plano de saúde, reduzir as internações significa reduzir custos da operadora e, consequentemente, mais lucro.

Com menos internações, a Prevent Senior teria menos custos durante a pandemia, e era essa a sua principal preocupação.

Por isso, segundo as denúncias, médicos eram forçados a prescrever hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia e até para reduzir o oxigênio de pacientes que estavam há muitos dias na UTI.

E aqui entra um elemento central nessa equação: por se tratar da iniciativa privada, os profissionais não têm estabilidade funcional. Então, eram ameaçados de demissão sumária caso se recusassem.

Um paciente morto custa menos para a Prevent Senior do que uma longa internação na UTI, e as denúncias enviadas a CPI demonstram que houve casos em que comprovadamente a empresa fez a opção pela economia (ou seja, pela morte).

A busca desumana pelo lucro nesse caso aliou-se aos interesses políticos do Governo Federal que, que com seu negacionismo, buscava formas de impedir o isolamento social (que tantas mortes poderia ter evitado) e apoiou, secreta e ilicitamente, a Prevent Senior em suas experiências que estão sendo comparadas ao do médico nazista Josef Mengele.

Investigações recentes mostraram que para esconder o fracasso do tratamento precoce e do uso dos tais medicamentos, a Prevent Senior teria escondido a morte do médico negacionista Anthony Wong (celebridade entre apoiadores do governo), que era um dos participantes dos estudos. 123 funcionários que prestaram atendimento a ele no hospital onde estava internado mantiveram sigilo sobre o tratamento precoce. Outra investigação aponta para uma fraude no atestado de óbito da mãe do empresário extremista Luciano Hang, para esconder a morte em decorrência da Covid-19, e também o uso dos tais medicamentos ineficazes.

Sem controle social e sem ter o bem-estar da população como prioridade, como é o caso do atendimento nos serviços estatais, empresários se valem da privatização dos serviços públicos para jogar com vidas humanas, vistas apenas como meios para se obter mais e mais lucros. 

Proteção

E há ainda outras mostras da relação espúria do poder econômico com agentes públicos e órgãos que deveriam prezar pelo bem-estar da população, mas não o fizeram por questões políticas e financeiras.

O deputado federal Alexandre Padilha (PT) havia denunciado, em abril de 2020, um estudo ilegal que a Prevent Senior estava conduzindo para atestar a eficácia da cloroquina no combate à Covid-19.

De lá para cá, infelizmente, o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Conselho Regional de Medicina do estado de São Paulo e o Conselho Federal de Medicina nada fizeram para apurar o caso. O resultado está aí.

“Rastrear o dinheiro”

Como explicar a negligência de tantos órgãos, que tinham a função de proteger a vida dos brasileiros?

Na pandemia, muitas empresas tiveram seus lucros multiplicados com a venda de medicamentos ineficazes, propagandeados pelo presidente Jair Bolsonaro, por membros de seu governo e por apoiadores.

Ao final disso tudo, há perguntas que dificilmente serão respondidas. Especialmente sobre quem mais ganhou dinheiro com tudo isso?

É difícil saber se membros dos governos, políticos, pseudojornalistas, comentaristas, youtubers, militantes radicais, empresários de diferentes ramos, membros de órgãos e autarquias e tantas pessoas que fizeram (e ainda fazem) propaganda de medicamentos comprovadamente ineficazes tiveram ganhos financeiros com isso tudo.

A imagem do presidente Jair Bolsonaro oferecendo o medicamento para uma ema foi emblemática para todo o planeta.

E não se trata de pessoas sem acesso à informação ou sem o hábito de buscar informações confiáveis. Não estamos falando das pessoas das nossas famílias que recebem dezenas ou centenas de fake news todos os dias e fazem questão de passá-las adiante porque acreditaram nelas.

São pessoas em altas posições, com acesso facilitado à informação de fontes confiáveis, mas que mesmo assim escolhem disseminar as mentiras sobre os tais medicamentos, eventualmente colocando o próprio emprego em risco (como no caso de um velho jornalista de uma rede nacional que se tornou militante extremista e perdeu o emprego por mentir duas vezes sobre tratamento precoce).

E por que há um esforço gigantesco do governo de Jair Bolsonaro para abafar o caso Prevent Senior? Diante da possibilidade da abertura de uma nova CPI para apurar o caso, por que a base governista corre para impedir as investigações?

Por que a base governista continua usando informações de entidades representativas duvidosas que defendem o uso dos tais medicamentos (ineficazes), como a Médicos Pela Vida que, segundo apurações, tem até o site mantido por uma indústria farmacêutica que produz ivermectina (um dos medicamentos daquilo que ficou conhecido como ‘kit covid’)?

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) identificou que a irmã e sócia do empresário que faturou 29 vezes mais com a venda de ivermectina realizou 274 saques de dinheiro em espécie entre abril de 2019 e abril de 2021, em operações que somavam R$ 937 mil. O órgão, que auxilia nas investigações de lavagem de dinheiro, viu nessas movimentações indícios de burla à identificação das pessoas que receberiam os valores.

Coincidentemente (ou não), o empresário é o mesmo que foi identificado como responsável pelo site da Médicos Pela Vida, entidade referência para a base governista na defesa dos tratamentos comprovadamente ineficazes.

O COAF é o mesmo órgão que identificou as movimentações suspeitas nas contas da primeira-dama Michelle Bolsonaro e do senador Flavio Bolsonaro (cujos assessores sacaram, em dinheiro vivo, pelo menos R$ 7,2 milhões) e vem sofrendo interferência do governo Bolsonaro.

Essa mistura nefasta de interesses entre o público e o privado vem custando milhares e milhares de vidas de brasileiros. Rastrear o dinheiro deve ser o primeiro passo para nosso país começar a desenrolar esse novelo.

Escândalo Hapvida

Com as denúncias feitas pelos médicos que trabalhavam na Prevent Senior, surgiram outras notícias indicando que o caso da operadora paulistana pode ser só a ponta do iceberg de um escândalo ainda maior envolvendo a saúde privada durante a pandemia.

Segundo denúncias, médicos eram obrigados a receitar “tratamento precoce” a fim de reduzir internações e aumentar lucros também aconteceram em hospitais do plano de saúde Hapvida.

Os profissionais que levavam seu juramento e sua missão a sério e se negavam, eram pressionados, constrangidos ou demitidos, assim como na Prevent Senior.

Um vídeo gravado em julho do ano passado reforça as suspeitas de que o governo de Jair Bolsonaro se aliou a operadoras de saúde para propagar o uso dos medicamentos sem eficácia comprovada no combate à Covid-19. Em uma reunião virtual com a participação da secretária de Gestão e Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina” (cujo pai faleceu em decorrência da Covid-19 no dia 5 de outubro) e o superintendente nacional da Hapvida defendiam o uso do Kit Covid. Também participaram representantes da operadora Unimed e dos Conselhos de Medicina.

Em 2020, durante a pandemia, o faturamento da Hapvida aumentou 51%, chegando a R$ 8,5 bilhões.

É inerente à iniciativa privada a priorização dos lucros acima de tudo, o que pode levar a casos extremos como o da Prevent Senior e do Hapvida, muito simbólicos dos perigos que corremos quando colocamos nossos direitos, e nossas vidas, nas mãos de quem só busca poder e dinheiro e se embrenha nas entranhas do poder público para enriquecer ainda mais, mesmo que isso custe a vida de milhares de pessoas.

Fonte: APUB

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