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Eram pouco mais de 9h30 quando os clarins começaram a tocar, conduzindo professores, estudantes, representantes de movimentos sociais e autoridades ao início de mais uma edição da Comenda Ubiratan Castro. Neste ano, a honraria prestou homenagem ao ator e diretor Antônio Pitanga e à cantora, compositora e deputada Leci Brandão. A cerimônia, promovida pela APUB Sindicato em celebração à luta e à resistência do povo negro, ocorreu na manhã desta quinta-feira (04/12), no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.
Compuseram a mesa da solenidade a deputada estadual Olívia Santana, representando Leci Brandão — que não pôde comparecer por questões de saúde —; a iyalorixá Mãe Gilmara Santos, do terreiro Ilé Asé Omim Obàlágbdé; a chefe de gabinete da Reitoria, Denise Vieira; a diretora da Faculdade de Direito da UFBA, Mônica Aguiar da Silva; o professor da Faculdade de Direito, Ponciano de Carvalho; a presidenta da APUB, Raquel Nery; e o diretor acadêmico Márcio André dos Santos.

Memória, política e potência da arte negra
Antônio Pitanga presenteou o público com uma fala contundente, marcada por reflexões sobre a centralidade da população negra na construção das artes e da política brasileira. Ao agradecer pela homenagem, reforçou a importância de celebrar trajetórias históricas ainda em vida:
“São momentos como esse, que você está de pé, que faz com que essas pessoas revisitem a sua história. […] Quando eu olho para vocês, hoje, eu digo que estamos diante de um grande quilombo”.
Aos 86 anos, com uma carreira que atravessa e transforma a história do cinema nacional, Pitanga destacou o diálogo constante com as novas gerações como condição para seguir atuante: “Cada vez que eu olho pra vocês eu me rejuvenesço. Venham comigo porque na luta nossa a gente tem que estar de pé”.
Homenageada especial desta edição, Leci Brandão enviou um vídeo dedicando a honraria às mulheres negras que abriram caminhos. Representando a artista, a deputada estadual Olívia Santana revisitou sua trajetória e ressaltou sua força como referência política e cultural: “Leci é uma mulher muito grata e com uma fé inabalável nos orixás. E ela credita aos orixás o seu resgate como artista”. Olívia também homenageou Pitanga, a quem descreveu como “um griô, pois ele é em si a história do cinema brasileiro”.
Abertura da cerimônia e homenagens institucionais
A iyalorixá Mãe Gilmara Santos realizou a saudação inicial, reafirmando o sentido político e espiritual do encontro: “É uma honra estar aqui, mais uma vez, nesta terceira edição. Quando vocês trazem o terreiro de candomblé para esse evento, vocês estão dizendo que a gente tem enquanto movimento social para poder também contar essa história”.
Representando a Reitoria da UFBA, a chefe de gabinete Denise Vieira destacou a importância de sediar a cerimônia e relembrou sua primeira interação com Pitanga: “Hoje é um dia muito feliz para a UFBA, e especial para mim. Conheci Antônio Pitanga gravando Pastores da Noite, na década de 1980. A UFBA se sente homenageada por ter o senhor aqui conosco hoje”.
A diretora da Faculdade de Direito, Mônica Aguiar, convidou o público a assistir “Malês”, dirigido por Pitanga e exibido internacionalmente: “O fato de nós tirarmos das sombras uma história que diz muito sobre o sofrimento de nosso povo, mas principalmente a discussão que isso leva […] é muito importante”.
Um dos idealizadores da Comenda, enquanto diretor acadêmico do sindicato na Gestão 2023-2024, o professor da Faculdade de Direito da UFBA, Ponciano de Carvalho, quebrou o protocolo, convidando o cantor e compositor Chocolate da Bahia para interpretar uma canção dedicada a Pitanga. Em sua fala, recuperou o sentido político da honraria: “Chegamos em mais um ano de entrega da Comenda Ubiratan Castro, Comenda que representa o Mestre Bira e a ideia de centralização da questão racial em nossas preocupações democráticas. Que representa a luta antirracista, também no lugar do sorriso negro, que traz felicidade, traz vida e traz Pitanga com Leci”.
A centralidade da Comenda para a APUB
A presidenta da APUB, Raquel Nery, destacou a importância da Comenda como parte do calendário político do sindicato e como espaço de reconhecimento do protagonismo negro na construção democrática. “Meu pronunciamento se sintetiza em três palavras: gratidão, reconhecimento e celebração. É uma honra participar, junto com meus colegas diretores e apoiadores, da construção desse momento tão importante, que é uma das mais relevantes datas do Calendário APUB”, afirmou.
Raquel fez um agradecimento especial aos integrantes da gestão anterior que conceberam a Comenda, lembrando o trabalho conduzido pelas professoras Marta Lícia Jesus e Clarisse Paradis e pelo professor Ponciano de Carvalho: “Nessa palavra de gratidão, faço um agradecimento especial àqueles que, antes da atual diretoria, conceberam este momento, que se repete. Mas também, uma gratidão enorme ao povo negro, que é o protagonismo desta festa, e o reconhecimento pela relevância do povo negro para todos os aspectos da nossa vida como nação.”
Marcio André dos Santos, diretor Acadêmico da APUB, também participou da cerimônia de entrega da honraria e celebrou as trajetórias de Leci Brandão e Antônio Pitanga, “duas figuras que atravessam gerações e que representam, cada qual à sua maneira, a força, a resistência e a potência da cultura e da arte brasileira”. Ele ressaltou a importância de Leci como uma das grandes vozes do samba, cuja obra afirma a negritude, denuncia desigualdades e expressa valores como justiça, solidariedade e ancestralidade — elementos que dialogam profundamente com a experiência do povo negro e das periferias.
Ao saudar Antônio Pitanga, Marcio sublinhou sua relevância no Cinema Novo e a amplitude de sua trajetória no cinema, teatro e televisão, mencionando ainda o simbolismo de Malês, filme dirigido pelo artista e no qual interpretou Pacífico Licutan: “Como docente de uma universidade federal, a UNILAB, cujo campus leva o nome ‘Malês’, digo com orgulho que ver essa história ganhar vida nas telas também fortalece nossa identidade e nossa memória coletiva”, afirmou.
Sobre a Comenda
A Comenda homenageia o historiador Ubiratan Castro, fundador do CEAO/UFBA, ex-diretor da Fundação Pedro Calmon, presidente do Conselho para o Desenvolvimento das Comunidades Negras de Salvador e membro da Academia Baiana de Letras, onde ocupou a cadeira 33. A mesma cadeira foi, posteriormente, assumida pelo professor e pesquisador, Muniz Sodré, homenageado na segunda edição da Comenda.
A cerimônia teve transmissão ao vivo pelo canal da APUB no YouTube.












