{"id":28942,"date":"2019-08-19T20:46:40","date_gmt":"2019-08-19T20:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/apub.org.br\/?p=28942"},"modified":"2019-08-19T20:46:42","modified_gmt":"2019-08-19T20:46:42","slug":"boaventura-sobre-future-se-trata-se-de-transformar-a-universidade-de-um-bem-comum-em-investimento-lucrativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apub.org.br\/siteantigo\/boaventura-sobre-future-se-trata-se-de-transformar-a-universidade-de-um-bem-comum-em-investimento-lucrativo\/","title":{"rendered":"Boaventura sobre Future-se: &#8220;trata-se de transformar a universidade de um bem comum em investimento lucrativo&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>O capitalismo compreendeu que  mercantilizar a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente lucrativo. No entanto, essa  constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recente. A ci\u00eancia construiu-se como um conhecimento  colonizador, subjugando e exterminando os conhecimentos que buscavam a  interliga\u00e7\u00e3o do ser humano e a natureza. O conhecimento abstra\u00eddo,  separado e fragmentado, constitui-se como base da explora\u00e7\u00e3o da Terra e  dos povos que a ela se identificavam. O soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura  de Sousa Santos explica, em entrevista concedida por e-mail \u00e0 IHU  On-Line, que \u201ca concep\u00e7\u00e3o [de natureza] que foi adotada nas col\u00f4nias foi  a concep\u00e7\u00e3o cartesiana porque era essa a que permitia explorar os  recursos naturais sem limite e mesmo considerar os povos nativos como  parte da natureza e, tal como ela, totalmente dispon\u00edveis para os  interesses coloniais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia, para Boaventura, tem um  car\u00e1ter amb\u00edguo e contradit\u00f3rio, pois \u201ctem um pluralismo interno, pode  ser um instrumento contra a domina\u00e7\u00e3o capitalista, colonialista e  patriarcal mas o conhecimento cient\u00edfico continua afirmando uma  superioridade incondicional e em abstrato que acaba por legitimar o  epistemic\u00eddio\u201d. Para o soci\u00f3logo, esse pluralismo coloca a ci\u00eancia em  disputa, sendo a universidade o local dos diferentes enfrentamentos.  \u201cNas \u00faltimas d\u00e9cadas houve esfor\u00e7o not\u00e1vel no sentido de tornar esse  projeto [de universidade p\u00fablica] mais inclusivo e intercultural. Esse  esfor\u00e7o est\u00e1 hoje no centro da hostilidade \u00e0 universidade p\u00fablica. \u00c9 que  o neoliberalismo n\u00e3o est\u00e1 mais interessado em projetos de pa\u00eds\u201d,  acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dessa trajet\u00f3ria contradit\u00f3ria, \nformula-se \u201co capitalismo universit\u00e1rio\u201d. A educa\u00e7\u00e3o como mercadoria \nlucrativa faz dos estudantes \u201cconsumidores de um servi\u00e7o produzido pela \nuniversidade de que os trabalhadores mais qualificados s\u00e3o os \nprofessores\u201d. Boaventura exp\u00f5e que esse processo se formula em cinco \nfases: primeiro, \u201ca degrada\u00e7\u00e3o financeira da universidade p\u00fablica \ntransferindo recursos para o setor privado\u201d; segundo, \u201cprivilegiando a \nforma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho exigida pela economia\u201d; terceiro, \n\u201ctorna-se mercado onde os estudantes deviam pagar para entrar\u201d; quarto, \n\u201ccriam-se rankings das universidades para que cada universidade passasse\n a ter um valor de mercado globalmente reconhecido\u201d; e, por fim, \u201ca \nuniversidade deve ser gerida como uma empresa capitalista privada\u201d. O \nsoci\u00f3logo identifica que no Brasil todas as fases do capitalismo \nuniversit\u00e1rio est\u00e3o articuladas no programa Future-se: \u201cavan\u00e7a de \nmaneira brutal, tipo terapia de choque, para queimar etapas e fazer \ncolapsar as fases acima mencionadas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o soci\u00f3logo \u00e9 necess\u00e1rio, mais que a\n defesa da universidade p\u00fablica, a defesa de uma reforma universit\u00e1ria \u2013\n aos moldes da Reforma de C\u00f3rdoba de 1918 \u2013 a partir de cinco vetores: a\n democratiza\u00e7\u00e3o da universidade; a reconvers\u00e3o epistemol\u00f3gica, ao que \ndesigna como Epistemologias do Sul; a luta contra o elitismo; o \ntestemunho na pr\u00e1tica da sua voca\u00e7\u00e3o anticapitalista, antipatriarcal, \nanticolonialista; e a cria\u00e7\u00e3o de formas n\u00e3o capitalistas (fora da l\u00f3gica\n dos rankings) de coopera\u00e7\u00e3o interuniversit\u00e1ria, tanto a n\u00edvel nacional \ncomo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Boaventura de Sousa Santos \u00e9 professor \ncatedr\u00e1tico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e \nDistinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de \nWisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. \u00c9 \nigualmente diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de \nCoimbra, diretor do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o 25 de Abril da mesma \nUniversidade e coordenador Cient\u00edfico do Observat\u00f3rio Permanente da \nJusti\u00e7a Portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre sua vasta produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, \ncitamos os recentes livros The End of the Cognitive Empire (Duke \nUniversity Press, 2018); Pneumat\u00f3foro: Escritos Pol\u00edticos 1981-2018 \n(Almedina, 2018); Esquerdas do Mundo, Uni-vos! (Boitempo, 2017); \nDecolonising the University (Cambridge Scholars, 2017); Justicia entre \nSaberes: Epistemolog\u00edas del Sur contra el Epistemicidio(Morata, 2017); \nAs bifurca\u00e7\u00f5es da ordem. Revolu\u00e7\u00e3o, cidade, campo e indigna\u00e7\u00e3o (Editora \nCortez, 2016); A Dif\u00edcil Democracia &#8211; Reinventar As Esquerdas (Boitempo \nEditorial, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se constituiu o conhecimento cient\u00edfico nos pa\u00edses colonizados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Constituiu-se como parte integrante do  processo colonial. Foi sempre mais uma quest\u00e3o de poder do que de saber e  envolveu sempre a destrui\u00e7\u00e3o dos conhecimentos que vigoravam nas  regi\u00f5es do mundo por onde se expandiu o colonialismo europeu. Chamo isso  de epistemic\u00eddio. O epistemic\u00eddio foi sempre o outro lado do genoc\u00eddio: popula\u00e7\u00f5es sem valor humano porque ignorantes ou detentoras de  conhecimentos sem validade ou at\u00e9 perigosos. Nunca atuou em separado do conhecimento teol\u00f3gico, a evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas este projeto teve diferentes \ntrajet\u00f3rias em diferentes regi\u00f5es do mundo. Na \u00c1sia e em parte da \u00c1frica\n e das Am\u00e9ricas, onde existiam imp\u00e9rios que detinham e sustentavam \nsistemas de conhecimento ordenado e, por vezes, escrito, o epistemic\u00eddio\n foi particularmente violento e, paradoxalmente, foi acompanhado pelo \nfasc\u00ednio da diferen\u00e7a epistemol\u00f3gica e a absor\u00e7\u00e3o ou aproveitamento \nseletivos. Em outras regi\u00f5es, a ci\u00eancia e a evangeliza\u00e7\u00e3o atuaram como \nse operassem em tabula rasa.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia colonial foi sempre uma \nci\u00eancia truncada em rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento existente na Europa. Por \nexemplo, no s\u00e9culo XVII estavam vigentes (ainda que com difus\u00e3o \ndiferente) duas concep\u00e7\u00f5es de natureza, a cartesiana, que concebia a \nnatureza como desprovida de dignidade divina e, por isso, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o \ndos seres humanos (res extensa), e a concep\u00e7\u00e3o espinozista que \ndistinguia entre a natureza inerte (natura naturata) e a natureza fonte \nsagrada de vida (natura naturans) e, como tal, plena de dignidade divina\n (deus sive natura).<\/p>\n\n\n\n<p>A concep\u00e7\u00e3o que foi adotada nas col\u00f4nias\n foi a concep\u00e7\u00e3o cartesiana porque era essa a que permitia explorar os \nrecursos naturais sem limite e mesmo considerar os povos nativos como \nparte da natureza e, tal como ela, totalmente dispon\u00edveis para os \ninteresses coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como, no contexto atual do Brasil e do mundo, \u00e9 poss\u00edvel compreender a colonialidade dos saberes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O colonialismo, ao contr\u00e1rio do que se  pensa, n\u00e3o terminou com as independ\u00eancias, apenas mudou de forma. Passou  a ser um colonialismo interno, desde a concentra\u00e7\u00e3o de terra at\u00e9 ao  racismo. Vivemos em sociedades capitalistas, colonialistas e  heteropatriarcais. Obviamente, a quest\u00e3o epistemol\u00f3gica \u00e9 hoje muito  mais complexa porque a ci\u00eancia tem um pluralismo interno que permitiu  que ela tamb\u00e9m se tornasse um instrumento eficaz contra o colonialismo.  Parte do ataque de hoje \u00e0 universidade vem da\u00ed. Mas o conhecimento  cient\u00edfico continua afirmando uma superioridade incondicional e em  abstrato que acaba por legitimar o epistemic\u00eddio, ontem como hoje. Se eu  quero ir \u00e0 lua preciso do conhecimento cient\u00edfico, mas se eu quero  conhecer e defender a biodiversidade da Amaz\u00f4nia, preciso do  conhecimento ind\u00edgena. Isto, que parece evidente, continua a ser negado  pelas concep\u00e7\u00f5es dominantes de ci\u00eancia e do ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De que forma podemos compreender hoje, no Brasil e no mundo, o papel da universidade p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dado o seu pluralismo interno, a ci\u00eancia\n pode ser um instrumento contra a domina\u00e7\u00e3o capitalista, colonialista e \npatriarcal. A universidade p\u00fablica em contexto democr\u00e1tico tem defendido\n esse pluralismo ao defender a liberdade acad\u00eamica como pressuposto da \nprodu\u00e7\u00e3o de um conhecimento livre, cr\u00edtico e independente. Esse \nconhecimento confronta as elites retr\u00f3gradas ao p\u00f4r a sua domina\u00e7\u00e3o \ninjusta a nu. Da\u00ed que elas n\u00e3o desperdicem as oportunidades para tentar \nneutralizar a universidade p\u00fablica. Por outro lado, a universidade \np\u00fablica foi onde se constru\u00edram os projetos de pa\u00eds. Estes projetos \nforam quase sempre excludentes, pois n\u00e3o inclu\u00edram a hist\u00f3ria da \nresist\u00eancia anticolonial, os povos ind\u00edgenas, os povos de matriz \nafricana, as mulheres, para n\u00e3o falar dos direitos do povo cigano ou de \npessoas com necessidades especiais etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, nas \u00faltimas d\u00e9cadas houve esfor\u00e7o\n not\u00e1vel no sentido de tornar esse projeto mais inclusivo e \nintercultural. Esse esfor\u00e7o est\u00e1 hoje no centro da hostilidade \u00e0 \nuniversidade p\u00fablica. \u00c9 que o neoliberalismo n\u00e3o est\u00e1 mais interessado \nem projetos de pa\u00eds. Para ele, a economia \u00e9 uma s\u00f3, capitalista e \nglobal, e as elites que a governam devem ser treinadas em universidades \nigualmente globais. As universidades nacionais s\u00e3o empecilho perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como o senhor analisa o espa\u00e7o da universidade hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um espa\u00e7o crescentemente plural e \ndiverso que come\u00e7a a ter consci\u00eancia de que tem ainda um longo caminho a\n fazer no sentido de se descolonizar, democratizar e despatriarcalizar. \nMas, na medida em que toma consci\u00eancia disto, torna-se mais forte e mais\n perigosa para as \u201celites do atraso\u201d como bem diz o Jess\u00e9 de Souza [1]. A\n universidade p\u00fablica (e a universidade privada n\u00e3o lucrativa e com \nmiss\u00e3o universit\u00e1ria, isto \u00e9, a universidade que recusa ser uma \nuniversidade-neg\u00f3cio) \u00e9 talvez a mais bem administrada institui\u00e7\u00e3o do \nEstado e aquela em que h\u00e1 menos corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 um espa\u00e7o de conviv\u00eancia \ndemocr\u00e1tica que come\u00e7a a conhecer os limites da sua democratiza\u00e7\u00e3o e no \nmelhor dos casos, ali\u00e1s frequentes, come\u00e7a a tomar medidas para os ir \nultrapassando. Tamb\u00e9m nesta medida se transforma numa amea\u00e7a para o \npoder conservador e suas elites que querem preservar o elitismo das \nuniversidades para as manter ao seu servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe um ass\u00e9dio neoliberal \u00e0s universidades? Como ele se d\u00e1 e que neoliberalismo \u00e9 esse que incide tamb\u00e9m sobre os saberes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O neoliberalismo come\u00e7ou a penetrar na \nuniversidade em grande escala a partir dos anos 1980, quando se come\u00e7ou a\n expandir o que designo como capitalismo universit\u00e1rio. Trata-se de \ntransformar a universidade, de um bem comum, em investimento lucrativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um c\u00e9lebre estudo da Merril Lynch [2] \nafirmava nessa \u00e9poca que a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o superior seriam duas das \n\u00e1reas de investimento mais lucrativo nas d\u00e9cadas seguintes. Este \nobjetivo exigia a degrada\u00e7\u00e3o das universidades p\u00fablicas para abrir \nespa\u00e7o para as universidades privadas. Foi a\u00ed que a universidade p\u00fablica\n deixou de ser em muitos pa\u00edses uma prioridade para o Estado. Foi esta a\n origem da chamada crise financeira das universidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>As cinco fases do capitalismo universit\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo universit\u00e1rio teve v\u00e1rias fases \u2013 em alguns pa\u00edses os processos foram simult\u00e2neos:<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira fase foi, como disse, a \ndegrada\u00e7\u00e3o financeira da universidade p\u00fablica (incluindo sal\u00e1rios de \nprofessores e bloqueio de carreiras) para permitir a cria\u00e7\u00e3o de \nuniversidades privadas com pessoal qualificado. Os primeiros professores\n foram quase todos formados em universidades p\u00fablicas em cuja forma\u00e7\u00e3o o\n Estado tinha feito um grande investimento. Deu-se, assim, o que podemos\n designar como a acumula\u00e7\u00e3o primitiva do sistema privado de ensino \nsuperior: uma transfer\u00eancia massiva de investimento p\u00fablico para o setor\n privado.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda fase consistiu na ideia de que\n a universidade devia privilegiar a forma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \nqualificada exigida pela economia. Todos os outros objetivos deviam ser \nnegligenciados ou eliminados.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira fase foi que a universidade \np\u00fablica devia ser ela pr\u00f3pria um mercado onde os estudantes deviam pagar\n para entrar (o an\u00e1tema da gratuidade demagogicamente convertido num \nprivil\u00e9gio injusto). E onde os professores deviam tornar-se mais \ncompetitivos, criando-se mecanismos quantitativos para medir a sua \nprodutividade e tornando as carreiras prec\u00e1rias para incentivar a \ncompetitividade.<\/p>\n\n\n\n<p>A quarta fase foi a inven\u00e7\u00e3o dos \nrankings das universidades, classifica\u00e7\u00f5es globais das universidades \n(dos seus professores) para que cada universidade passasse a ter um \nvalor de mercado globalmente reconhecido. No caso de se liberalizar \ninteiramente o sistema de ensino universit\u00e1rio, o pre\u00e7o a pagar por uma \nfranquia de um curso de uma dada universidade dependeria da localiza\u00e7\u00e3o \nno ranking, tanto da universidade vendedora como da universidade \ncompradora. O ranking, tal como o PIB, \u00e9 extremamente seletivo e \nenviesado nos fatores que contabiliza. Est\u00e1 na origem da enorme \nestratifica\u00e7\u00e3o e segmenta\u00e7\u00e3o do sistema universit\u00e1rio, uma \nestratifica\u00e7\u00e3o e segmenta\u00e7\u00e3o que discrimina contra as universidades de \nquase todos os pa\u00edses e contra a maioria delas dentro de cada pa\u00eds. \nTrata-se de uma globaliza\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria capitalista, totalmente \noposta \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o interuniversit\u00e1ria que existia\n antes.<\/p>\n\n\n\n<p>A quinta fase, talvez a mais recente, \u00e9 \nque a universidade no seu conjunto e, portanto, tamb\u00e9m a universidade \np\u00fablica deve ser, n\u00e3o s\u00f3 um mercado capitalista, mas tamb\u00e9m deve ser \ngerida como uma empresa capitalista privada. A distin\u00e7\u00e3o entre \nuniversidade p\u00fablica e privada deve diluir-se a prazo: os estudantes s\u00e3o\n consumidores de um servi\u00e7o produzido pela universidade de que os \ntrabalhadores mais qualificados s\u00e3o os professores.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, o capitalismo universit\u00e1rio  tem-se confrontado com muita resist\u00eancia e, em certos pa\u00edses, como no  caso do Brasil durante os governos do PT, tem havido fortes movimentos de  contracorrente. O Projeto Future-se visa neutralizar esse movimento e  avan\u00e7ar com os objetivos do capitalismo universit\u00e1rio. E avan\u00e7ar de  maneira brutal, tipo terapia de choque, para queimar etapas e fazer  colapsar as fases acima mencionadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que a universidade se torna um objeto de desejo para l\u00f3gicas neoliberais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por duas raz\u00f5es. Primeiro, como referi, \u00e9\n considerado um investimento lucrativo. Segundo, a transforma\u00e7\u00e3o \ncapitalista da universidade retira-lhe a capacidade de produzir \nconhecimento cr\u00edtico, livre e independente. A universidade \u00e9 assim \ndomesticada e sujeita \u00e0 l\u00f3gica global capitalista. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a \nrepress\u00e3o policial. Basta que a monotonia das medidas de medi\u00e7\u00e3o do \ndesempenho e do ranking fa\u00e7am o trabalho que se espera delas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos, ainda, afirmar que a \nuniversidade tamb\u00e9m se torna um terreno de desejo da extrema direita que\n ascende no mundo? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A extrema direita v\u00ea na universidade um \nambiente particularmente hostil precisamente porque esta tem vindo a \noperar gradualmente contra tudo o que \u00e9 an\u00e1tema para a extrema direita: \ndemocratiza\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de conhecimento com voca\u00e7\u00e3o anticapitalista, \nanticolonialista e antipatriarcal, luta contra os preconceitos raciais e\n sexuais e contra conservadorismo religioso ou de casta (no caso da \n\u00cdndia).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, existe a emerg\u00eancia de uma Reforma\n Universit\u00e1ria? De que ordem deve ser essa reforma e em que medida o \nesp\u00edrito (a alma, a consci\u00eancia) da Reforma de C\u00f3rdoba [3], de 1918, \nainda pode inspirar?<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente a reforma de que se fala \nhoje \u2014 flagrantemente o caso de Future-se \u2014 est\u00e1 nos ant\u00edpodas da \nreforma animada no continente pelos estudantes de C\u00f3rdoba (Argentina) de\n 1918. Esta \u00faltima visou aumentar a responsabilidade social da \nuniversidade de que nasceram, por exemplo, os departamentos de extens\u00e3o \nuniversit\u00e1ria. O capitalismo universit\u00e1rio visa substituir a \nresponsabilidade social pela efici\u00eancia econ\u00f4mica. A reforma capitalista\n da universidade \u00e9 uma contrarreforma. N\u00e3o visa dar um futuro \u00e0 \nuniversidade. Visa antes eliminar o futuro da universidade enquanto \nentidade espec\u00edfica com uma miss\u00e3o abrangente na sociedade. Visa acabar \ncom a ideia de universidade tal como a entendemos hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como a universidade pode ajudar a construir uma sociedade que supere as estruturas patriarcais, capitalistas e coloniais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira reforma da universidade dever\u00e1 aprofundar os seguintes objetivos. Identifico os principais vetores:<\/p>\n\n\n\n<p>1) Ampliar a democratiza\u00e7\u00e3o da \nuniversidade, n\u00e3o apenas no dom\u00ednio do acesso, como no dom\u00ednio do \nprofessorado, como no dom\u00ednio da pesquisa e da extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>2) Fazer uma reconvers\u00e3o epistemol\u00f3gica \nno sentido de passar do pluralismo interno da ci\u00eancia ao pluralismo \nexterno. \u00c9 o que designo por Epistemologias do Sul, isto \u00e9, o \nreconhecimento da exist\u00eancia de conhecimentos v\u00e1lidos para al\u00e9m do \nconhecimento cient\u00edfico, particularmente os conhecimentos nascidos nas \nlutas contra o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado, produzidos \npelas popula\u00e7\u00f5es que mais duramente t\u00eam sofrido as injusti\u00e7as e as \ndiscrimina\u00e7\u00f5es causadas por esses modos de domina\u00e7\u00e3o, tanto no passado \ncomo hoje. N\u00e3o se trata de qualquer movimento antici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se exatamente do oposto, na medida\n em que reconhecer os limites da ci\u00eancia e lev\u00e1-la a dialogar com outros\n conhecimentos n\u00e3o s\u00f3 aumenta a justi\u00e7a cognitiva sem a qual n\u00e3o h\u00e1 \njusti\u00e7a social, como d\u00e1 \u00e0 ci\u00eancia uma nova e excitante tarefa, a de \ncontribuir para produ\u00e7\u00e3o de ecologias de saberes que fortale\u00e7am as lutas\n das classes e popula\u00e7\u00f5es sociais oprimidas, exploradas, discriminadas. \nUm exemplo basta para ilustrar: no movimento antiagrot\u00f3xicos produz-se \numa ecologia criativa de saberes entre os conhecimentos cient\u00edficos de \nm\u00e9dicos, engenheiros, bi\u00f3logos e qu\u00edmicos e os conhecimentos das \npopula\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhas afetadas \npela contamina\u00e7\u00e3o das suas \u00e1guas, a degrada\u00e7\u00e3o das suas terras e o \nenvenenamento dos seus corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>O saber cient\u00edfico dos que fizeram \ndoutoramentos universit\u00e1rios deve saber dialogar e enriquecer-se com o \nsaber not\u00f3rio dos que t\u00eam o doutoramento da vida. Nisto consiste a \ntarefa descolonizadora da universidade, uma tarefa exigente porque tem \num componente de autocr\u00edtica que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil de digerir.<\/p>\n\n\n\n<p>3) A universidade deve lutar contra o \nelitismo com que sempre lidou com as escolas e os professores do ensino \nm\u00e9dio e secund\u00e1rio e criar formas de coopera\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o dos que \nlutam no seu dia a dia contra a educa\u00e7\u00e3o-neg\u00f3cio e por uma educa\u00e7\u00e3o \nlibertadora, emancipadora.<\/p>\n\n\n\n<p>4) A universidade deve dar testemunho na\n pr\u00e1tica da sua voca\u00e7\u00e3o anticapitalista, favorecendo, na provis\u00e3o dos \nseus servi\u00e7os, as economias familiares, cooperativas, solid\u00e1rias, de \nmulheres, camponesas, ind\u00edgenas, quilombolas. Por exemplo, as \nuniversidades n\u00e3o podem estar apenas fisicamente pr\u00f3ximas a favelas e \nperiferias. Devem estar, na pr\u00e1tica, solid\u00e1rias com a luta contra a \ninjusti\u00e7a social e racial de que as suas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>5) As universidades devem criar formas \nn\u00e3o capitalistas (fora da l\u00f3gica dos rankings) de coopera\u00e7\u00e3o \ninteruniversit\u00e1ria, a n\u00edvel nacional e internacional. Um bom exemplo \u00e9 a\n rede de universidades sul-sul, entre universidades brasileiras e \nargentinas, recentemente criada no \u00e2mbito das celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio \nda Reforma de C\u00f3rdoba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sem ainda superar as l\u00f3gicas \ncolonialistas, quais os riscos de adotarmos o pr\u00f3prio colonialismo como a\n solu\u00e7\u00e3o para os problemas dos pa\u00edses de terceiro mundo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em minha opini\u00e3o, o subcontinente e, \nparticularmente o Brasil, est\u00e1 a ser sujeito a um violento processo de \nrecoloniza\u00e7\u00e3o que abrange m\u00faltiplos setores: sistema judici\u00e1rio, entrega\n de recursos naturais e investimentos estrat\u00e9gicos, destrui\u00e7\u00e3o da base \nindustrial, sobretudo no setor da constru\u00e7\u00e3o civil para abrir caminho \u00e0s\n empresas estrangeiras, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, evangeliza\u00e7\u00e3o promotora da \nteologia da prosperidade etc.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como o senhor interpreta a \nascens\u00e3o da extrema direita no Brasil e no mundo a partir de lacunas \ndeixadas pela esquerda? E que lacunas s\u00e3o essas? Como super\u00e1-las?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos uma onda reacion\u00e1ria no mundo.  Distingue-se do conservadorismo. O pensamento conservador cr\u00ea nos  valores da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade,  embora d\u00ea total prioridade ao primeiro e o conceba mais pela \u00f3tica da  liberdade econ\u00f4mica do que pela \u00f3tica da liberdade pol\u00edtica, cultural e  social. Ao contr\u00e1rio, o pensamento reacion\u00e1rio pretende regressar a um  mundo pr\u00e9-Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, um mundo de privil\u00e9gios e de hierarquias  sociais assentes em supostas hierarquias naturais, sejam elas sexuais,  \u00e9tnico-raciais, religiosas ou de castas.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento de extrema direita esteve  sempre presente, numas \u00e9pocas mais e noutras menos. Neste momento, \u00e9 a  vers\u00e3o ideol\u00f3gica mais consistente da justifica\u00e7\u00e3o da extrema  desigualdade social causada pela vers\u00e3o mais antissocial do capitalismo  que hoje domina: o capital financeiro. A esquerda deve se autocriticar  sem se autoflagelar. A sua ilus\u00e3o principal foi pensar que o poder de  governo inclu\u00eda o poder social, cultural e econ\u00f4mico. Ora, isso nunca  ocorreu e agora tem de reconhecer amargamente esse erro e recome\u00e7ar de  novo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em que medida as chamadas pautas identit\u00e1rias (feminismo, negritude, diversidade sexual) desvertebram os movimentos de esquerda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em nenhum caso. Essa ideia decorre de  vis\u00f5es marxistas euroc\u00eantricas que viveram na ilus\u00e3o que o capitalismo  podia existir sem colonialismo e sem patriarcado. N\u00e3o pode. N\u00e3o h\u00e1  trabalho livre, capitalista sem a seu lado existir trabalho  desvalorizado e n\u00e3o pago, seja sob a forma de trabalho escravo, trabalho racializado ou sexualizado ou ainda o trabalho n\u00e3o pago da economia de  cuidado que continua a recair predominantemente nas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>O drama da nossa \u00e9poca \u00e9 que a domina\u00e7\u00e3o\n moderna tem tr\u00eas cabe\u00e7as principais que atuam articuladamente \n(capitalismo, colonialismo e patriarcado) enquanto a resist\u00eancia contra \nela tem estado fragmentada. Muitas lutas anticapitalistas t\u00eam sido \nracistas e sexuais, muitas lutas anticolonialistas e antirracistas t\u00eam \nsido sexistas e pr\u00f3-capitalistas e muitas lutas feministas t\u00eam sido \nracistas e pr\u00f3-capitalistas. Enquanto a domina\u00e7\u00e3o atuar articuladamente e\n a resist\u00eancia contra ela atuar fragmentadamente, n\u00e3o haver\u00e1 justi\u00e7a \nsocial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quais os desafios para fazer frente a esse avan\u00e7o neoliberal e de extrema direita que temos vivido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A domina\u00e7\u00e3o capitalista, colonialista e \npatriarcal est\u00e1 se revelando cada vez mais incompat\u00edvel com a \ndemocracia, mesmo a democracia de baixa intensidade como \u00e9 a democracia \nliberal. As democracias atuais correm o risco de morrer democraticamente\n ao eleger antidemocratas. O desafio maior \u00e9 a defesa da democracia e da\n conviv\u00eancia social a que ela apela. As for\u00e7as pol\u00edticas de direita \nconservadora n\u00e3o s\u00e3o defensoras confi\u00e1veis da democracia porque sempre \nque t\u00eam de optar entre mais democracia ou mais capitalismo, optam por \nmais capitalismo, como se mostrou no golpe contra a presidente Dilma \nRousseff. Recentemente publiquei um livro de interven\u00e7\u00e3o \u2014 Esquerdas do \nMundo, Uni-vos! (Boitempo Editorial, 2017) \u2014 no qual apelo a que as \ndiferentes for\u00e7as de esquerda esque\u00e7am tanto os sectarismos passados \ncomo alian\u00e7as esp\u00farias e destrutivas com a direita, e aprendam a unir-se\n na defesa da democracia. Amanh\u00e3 pode ser demasiado tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>Notas:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Jess\u00e9 Jos\u00e9 Freire de Souza (ou Jess\u00e9\n Souza) (1960): professor universit\u00e1rio e pesquisador brasileiro. Em 2 \nde abril de 2015 foi nomeado pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica ao cargo de \npresidente do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), cargo \nanteriormente ocupado por Sergei Suarez Dillon Soares. Foi demitido do \ncargo em maio de 2016, quando Michel Temer assumiu interinamente a \nPresid\u00eancia, depois do afastamento de Dilma Rousseff. Ele concedeu \nin\u00fameras entrevistas para IHU On-Line, entre elas Nova classe m\u00e9dia: um \ndiscurso economicista; e Ral\u00e9s, batalhadores e uma nova classe m\u00e9dia. \nAcesse mais aqui. (Nota da IHU On-Line).<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Merrill Lynch &amp; Co., Inc. \u00e9 um \nbanco norte-americano de investimentores e provedores de outros servi\u00e7os\n financeiros. Foi adquirido pelo Bank of America em 2008 (Nota da IHU \nOn-Line).<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Reforma Universit\u00e1ria de C\u00f3rdoba, \ntamb\u00e9m conhecida como Reforma Universit\u00e1ria de 1918: foi um movimento de\n proje\u00e7\u00e3o latino-americana para democratizar a universidade e \nconferir-lhe um car\u00e1ter cient\u00edfico. Come\u00e7ou com uma rebeldia estudantil \nna Universidade Nacional de C\u00f3rdoba da Argentina que se estendeu entre \nmar\u00e7o e outubro de 1918, durante a qual houve violentos confrontos entre\n reformadores e cat\u00f3licos. Sua data simb\u00f3lica \u00e9 15 de junho de 1918. \n(Nota da IHU On-Line).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fonte: Jo\u00e3o Vitor Santos e Wagner Fernandes de Azevedo \/ Instituto Humanitas Unisinos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O capitalismo compreendeu que mercantilizar a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente lucrativo. No entanto, essa constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recente. A ci\u00eancia construiu-se como um conhecimento colonizador, subjugando e exterminando os conhecimentos que buscavam a interliga\u00e7\u00e3o do ser humano e a natureza. 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