{"id":33803,"date":"2021-05-17T20:18:26","date_gmt":"2021-05-17T20:18:26","guid":{"rendered":"http:\/\/apub.org.br\/?p=33803"},"modified":"2021-05-18T21:43:31","modified_gmt":"2021-05-18T21:43:31","slug":"a-invasao-do-campus-da-ufba-em-2001-um-depoimento-a-partir-da-apub","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apub.org.br\/siteantigo\/a-invasao-do-campus-da-ufba-em-2001-um-depoimento-a-partir-da-apub\/","title":{"rendered":"A invas\u00e3o do campus da UFBA em 2001 &#8211; um depoimento a partir da APUB"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Joviniano S. de Carvalho Neto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, a invas\u00e3o do Campus do Canela pela Pol\u00edcia Militar completa 20 anos. Fornece \u201cgancho\u201d para mat\u00e9rias e depoimentos<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, oportunidade para meu depoimento sobre a participa\u00e7\u00e3o da APUB e minha. Era um momento de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional contra ACM e Jos\u00e9 Roberto Arruda pela viola\u00e7\u00e3o do sigilo de vota\u00e7\u00e3o no painel do Senado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedia-se a cassa\u00e7\u00e3o. Era, ent\u00e3o, Presidente da APUB. Acompanh\u00e1vamos e particip\u00e1vamos do movimento, mas no momento espec\u00edfico da agress\u00e3o n\u00e3o est\u00e1vamos na passeata estudantil e, sim, na sede da APUB, local privilegiado de observa\u00e7\u00e3o, que permitiu r\u00e1pida interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Observat\u00f3rio privilegiado<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o da APUB era espa\u00e7o privilegiado para observa\u00e7\u00e3o. Para os jovens professores vale relembrar. A sede da APUB, de 1985 a 2015, era na Rua Pe. Feij\u00f3 (ladeira do Hospital das Cl\u00ednicas).<\/p>\n\n\n\n<p>Na frente, o pr\u00e9dio principal com entrada para a Pe. Feij\u00f3, ao lado esquerdo o estacionamento e, ap\u00f3s o estacionamento, um elevado p\u00e1tio avarandado que une o pr\u00e9dio principal a uma constru\u00e7\u00e3o onde ficava a copa\/cozinha e banheiros. No canto direito descia uma escadaria, ladeada por constru\u00e7\u00f5es onde funcionava a APUB Sa\u00fade e apartamento para visitantes, e terminava, no Vale do Canela, junto ao Instituto de Ci\u00eancias da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e1tio \/ varanda permitia ver o Vale do Canela e, a escadaria, permitia o acesso ao Vale.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>A viola\u00e7\u00e3o do painel do Senado deflagrou movimento<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>A viola\u00e7\u00e3o do painel do Senado ocorreu no ano anterior quando ACM e Arruda teriam acessado os votos que deveriam ser secretos quando da cassa\u00e7\u00e3o do Senador Luiz Estev\u00e3o (PMDB- DF) por corrup\u00e7\u00e3o. ACM que, fora Presidente do Senado, tentara impedir que Helder Barbalho, ent\u00e3o, como em 2021, Senador pelo Par\u00e1, fosse eleito seu sucessor. Grande campanha, inclusive na m\u00eddia, acusando Barbalho de corrup\u00e7\u00e3o. Derrotado, continuou a campanha. Ao levar o que considerava den\u00fancia, revelou, em conversa gravada, que tivera acesso aos votos de cada Senador, na cassa\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Estev\u00e3o, o que desencadeou o esc\u00e2ndalo, a sua den\u00fancia ao Conselho de \u00c9tica por falta de decoro parlamentar e as press\u00f5es pela cassa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a pol\u00edtica baiana era, \u00e0 \u00e9poca, dividida entre carlismo e anti carlismo. Assim, todas as for\u00e7as \u201cprogressistas\u201d, inclusive n\u00f3s, na APUB, de um ou outro modo, acompanh\u00e1vamos e particip\u00e1vamos do movimento contra ACM, de acordo com as caracter\u00edsticas de cada setor.<\/p>\n\n\n\n<p>O modo do movimento estudantil era passeata. Acompanhei, mais como testemunha, a que saiu no dia 10 de maio, que foi barrada, pela pol\u00edcia, pr\u00f3ximo a Casa D\u00b4It\u00e1lia. N\u00e3o era muita gente. Rareava no Forte de S\u00e3o Pedro. Ali voltei para a APUB (no m\u00e1ximo 1Km) para algum apoio caso necess\u00e1rio. Depois, a passeata, que j\u00e1 pretendia ir para a Gra\u00e7a, \u201clavar a porta da casa de ACM\u201d, foi para a Pra\u00e7a da Piedade onde foi atacada pela pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias seguintes, protestos, atos pol\u00edticos e o movimento estudantil decidiu insistir no objetivo da passeata. Anunciou a passeata para o dia 16. Barrado na Vit\u00f3ria, tentou cortar caminho, pelo Vale do Canela, para chegar na Gra\u00e7a, onde ficava o apartamento de ACM.<\/p>\n\n\n\n<p>A PM barrou a passagem. Nem subir o viaduto para o lado da Gra\u00e7a, nem descer para o Vale.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Faculdade de Direito, os professores (Arx Tourinho, Wilson Alves de Souza e S\u00e9rgio Habib) tentaram negociar \u2013 exibiram habeas corpus permitindo a caminhada. N\u00e3o adiantou. Chegou a Pol\u00edcia Federal \u2013 o Campus \u00e9 \u00e1rea federal e devia barrar a PM. Que nada. A PM atacou com bombas de efeito moral e de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Os estudantes se dispersaram, procuraram abrigo nas unidades.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Rea\u00e7\u00e3o da APUB e da universidade<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Estava na sala da diretoria, quando a Jornalista da APUB, Ivone (Ivone Maria dos Santos Pinto) avisou. Professor, a PM est\u00e1 invadindo a Universidade. Sa\u00ed, olhei, vi estouro e vi fuma\u00e7a e disse para Ivone \u2013 denuncie para todo o mundo. A primeira not\u00edcia, para a imprensa nacional, saiu, em tempo real, da APUB, Verinha (Vera Guedes) que continua na APUB lembra dos outros funcion\u00e1rios olhando da varanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a mim, desci a escada e cheguei ao ICS, ainda com fuma\u00e7a. Roberto Paulo, na porta, impedira que policiais entrassem na sua escola, onde estudantes se refugiaram. Depois, lembro que percorri as escolas, Educa\u00e7\u00e3o, Administra\u00e7\u00e3o e subi a Faculdade de Direito, onde, em baixo, no estacionamento, a frente do Audit\u00f3rio. Dos Professores, lembro que Arx Tourinho ainda estava l\u00e1. A PM j\u00e1 havia abandonado o campo de batalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornando \u00e0 APUB, passamos a mobilizar para a rea\u00e7\u00e3o que seria um momento un\u00e2nime de defesa da Universidade e um marco da luta anti carlista.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 17, o audit\u00f3rio da Reitoria lotado, manifesta\u00e7\u00f5es convergentes. Devo ter dito algo. Os jornais da \u00e9poca e os arquivos da APUB podem conter algum registro. N\u00e3o me lembro do que disse, mas do que fizemos.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda da Reitoria em passeata. Eu, exatamente ao lado do Reitor Heonir Rocha, \u00e0 frente da passeata, na descida, ao lado do ICI \u2013 Instituto de Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o, chegando ao viaduto sobre o Vale. Lembro de uma foto no Jornal. O Dr. Heonir, grande m\u00e9dico, cat\u00f3lico praticante, \u00e0s v\u00e9speras da aposentadoria, n\u00e3o era um militante de passeata. Consciente, se deixou levar, assumiu seu lugar na onda humana. Fomos at\u00e9 a Faculdade de Direito. L\u00e1, alguns estudantes prosseguiram para \u201clavar\u201d a frente do pr\u00e9dio onde ACM morava, ali, perto na Gra\u00e7a.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201clavagem\u201d n\u00e3o era atividade oficial da UFBA, nem da APUB. Mas, como Cientista Pol\u00edtico e, para poss\u00edvel atua\u00e7\u00e3o, acompanhei de longe. A pol\u00edcia desta vez n\u00e3o atrapalhou.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201clavagem\u201d foi curta, tranquila e&#8230; simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto nacional da invas\u00e3o colocou mais press\u00e3o no debate sobre a cassa\u00e7\u00e3o de ACM.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Continua\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u2013 contribui\u00e7\u00e3o da APUB<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Parte da press\u00e3o contra ACM partiu da APUB. Em 25 de maio, divulguei, como Presidente da APUB, nota \u201c<a href=\"http:\/\/apub.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/ACM-O-PAI-DA-BAHIA.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ACM n\u00e3o \u00e9 o pai da Bahia<\/a>\u201d reagindo a \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de famosa cantora\u201d. Seria vis\u00e3o que \u201cparte dos baianos tem e foram estimulados a ter\u201d. Criticamos o tipo de pai (possessivo, autorit\u00e1rio, arbitr\u00e1rio) e afirmamos que o apoio baiano a ACM \u201c\u00e9 um dos mitos que se precisa esclarecer perante o Brasil\u201d. Apresentamos dados sobre as elei\u00e7\u00f5es: os votos carlistas nas elei\u00e7\u00f5es para governador eram de uma minoria dos eleitores. ACM obtivera 27%, em 1990, e o carlismo, nas elei\u00e7\u00f5es seguintes, 1994 e 1998, o m\u00e1ximo de 32%. Os eleitores, n\u00e3o vendo alternativa vi\u00e1vel, se abstinham, votavam em branco ou nulo. A nota, ainda resumia o caso, pedia o julgamento e a puni\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pela nota da APUB, mas pela press\u00e3o da qual ela era parte e para evitar a cassa\u00e7\u00e3o, ACM renunciou ao mandato no dia 30. Assumiu o mandato, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es Filho, executivo da Rede Bahia e, destaque-se, reconhecido como competente professor da Escola de Administra\u00e7\u00e3o da UFBA.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a ren\u00fancia fora anunciada, o Correio Brasiliense, me encomendou uma mat\u00e9ria \u201cBahia: efeitos de uma ren\u00fancia\u201d que ocupou grande espa\u00e7o no jornal, no dia 31 de maio. &nbsp;Assino como professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UFBA, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Soci\u00f3logos dos Estado da Bahia e da Associa\u00e7\u00e3o dos Professores Universit\u00e1rios da Bahia (grifo nosso). Na mat\u00e9ria, apresentava \u201cas bases de poder de ACM\u201d: controle das m\u00e1quinas partid\u00e1ria \u2013 administrativa do Estado, propriedade e controle da m\u00eddia e a reputa\u00e7\u00e3o de poder, a imagem de for\u00e7a. Esta \u00faltima teria sido atingida pela ren\u00fancia. Depois, tratamos da reafirma\u00e7\u00e3o carlista e da campanha de 2002 onde o carlismo procuraria se entrincheirar na Bahia.<\/p>\n\n\n\n<p>Realmente, em 2002, ACM se elege Senador (30,6%) e Paulo Souto (53,7%) Governador. Mas, Jacques Wagner, candidato a Governador, pelo PT, obteve 38,5% dos votos, muito acima das previs\u00f5es das pesquisas. Em 2006, Wagner vence, no primeiro turno, tamb\u00e9m contra as pesquisas que davam vit\u00f3ria de Paulo Souto no 1\u00ba turno.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista para explicar a vit\u00f3ria \u201cinesperada\u201d lembrou que as vit\u00f3rias carlistas vinham dos eleitores que n\u00e3o votavam para governador. Foto de ACM, obtida por jornal, mostra seu debacle com a derrota.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> RAMOS, Cleidiana. Repress\u00e3o a estudantes em invas\u00e3o do Campus da UFBA completa 20 anos, A Tarde, 15\/05\/2021, p\u00e1g. A 08.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foto: Wandaick Costa<\/strong>. Publicada na Exposi\u00e7\u00e3o digital <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/csbh\/retratos-do-maio-baiano\/\" target=\"_blank\">&#8220;20 anos do maio baiano&#8221;,<\/a> Centro S\u00e9rgio Buarque de Holanda de Documenta\u00e7\u00e3o e Hist\u00f3ria Pol\u00edtica &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Choque (Document\u00e1rio sobre a Invas\u00e3o da UFBA em 2001)\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YBBV8WPbNiA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joviniano S. de Carvalho Neto Em 2021, a invas\u00e3o do Campus do Canela pela Pol\u00edcia Militar completa 20 anos. 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