{"id":41155,"date":"2022-11-17T17:01:24","date_gmt":"2022-11-17T20:01:24","guid":{"rendered":"http:\/\/apub.org.br\/?p=41155"},"modified":"2022-11-17T17:33:13","modified_gmt":"2022-11-17T20:33:13","slug":"vultos-negros-e-negras-da-engenharia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apub.org.br\/siteantigo\/vultos-negros-e-negras-da-engenharia-no-brasil\/","title":{"rendered":"ARTIGO | Vultos negros e negras da Engenharia no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>*P<strong>or Ubiratan Felix <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste 20 de novembro \u00e9 importante fazer uma reflex\u00e3o sobre o processo de extin\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra no Brasil. A vis\u00e3o dominante na sociedade brasileira \u00e9 que o processo de \u201caboli\u00e7\u00e3o da escravatura\u201d foi de fora para dentro, sendo quase uma concess\u00e3o dos senhores de escravos e da elite brasileira de ent\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra, que pouco participou e\/ou teve uma participa\u00e7\u00e3o passiva neste processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta vis\u00e3o foi refor\u00e7ada por obras liter\u00e1rias do s\u00e9culo XIX que foram transformadas em novelas pela Rede Globo nas d\u00e9cadas de 70 e 90 do s\u00e9culo passado que tratavam da quest\u00e3o do trabalho escravo de forma romanceada e sem protagonismo negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Novelas como \u201cA Moreninha\u201d, \u201cHelena\u201d, \u201cEscrava Isaura\u201d (novela mais assistida no mundo) e \u201cSinh\u00e1 Mo\u00e7a\u201d, onde o grande her\u00f3i da novela, \u201cO irm\u00e3o do Quilombo\u201d, era um advogado branco e abolicionista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que existiam varias correntes de pensamento com vis\u00f5es diversas sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil. Existiam aqueles que defendiam um movimento insurrecional, como&nbsp; o ocorrido no Haiti no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX e que no Brasil teve sua express\u00e3o na Revolta dos Mal\u00eas em 1835. Outros que defendiam o&nbsp; regresso \u00e0 m\u00e3e \u201c\u00c1frica\u201d eram chamados regressionistas, que realizaram caminho de retorno e hoje seus descendentes foram ou s\u00e3o pessoas eminentes em v\u00e1rios pa\u00edses africanos. E, finalmente, a corrente reformista que defendia a aboli\u00e7\u00e3o gradual e negociada onde o Estado Brasileiro garantisse terra e instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica para todos os ex- escravizados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No final, prevaleceu \u00e0 posi\u00e7\u00e3o mais \u201creacion\u00e1ria\u201d que foi a aboli\u00e7\u00e3o sem apoio econ\u00f4mico, politicas de repara\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o de politicas de criminaliza\u00e7\u00e3o como: a \u201clei da vadiagem\u201d que permitia prender qualquer pessoa sem cometer crime que tivesse desocupada e que tinha como alvos os negros desempregados das grandes cidades, e o curandeirismo que tinha como alvo os \u201csacerdotes\u201d das religi\u00f5es de matriz africana.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o, quando \u00e9 citada a contribui\u00e7\u00e3o dos negros no desenvolvimento econ\u00f4mico e social do Brasil, \u00e9 sempre nas \u00e1reas de gastronomia, m\u00fasica, dan\u00e7a e no trabalho bra\u00e7al nas lavouras do a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o e caf\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este fen\u00f4meno \u00e9 decorr\u00eancia da ideologia do embranquecimento do final dos S\u00e9culos XIX e XX, que apagou a contribui\u00e7\u00e3o de eminentes brasileiros negros na Literatura, Medicina, Engenharia, Ensino e Tecnologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este processo do embranquecimento de figuras como Machado de Assis ou no apagamento hist\u00f3rico de figuras como os irm\u00e3os Rebou\u00e7as, que foram os pioneiros da Engenharia moderna no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andr\u00e9, Ant\u00f4nio e Jos\u00e9 Pinto de Rebou\u00e7as<\/strong>, nasceram na primeira metade do S\u00e9culo XIX em Cachoeira Bahia, eram filhos de Ant\u00f4nio Pereira Rebou\u00e7as, que era \u201cr\u00e1bula ou advogado comissionado\u201d e deputado Geral do Imp\u00e9rio. Seu tio era o Professor da Faculdade Medicina Dr. Manuel Maur\u00edcio Rebou\u00e7as. Os tr\u00eas se diplomaram na Escola Militar do Rio de Janeiro. Eram abolicionistas e defensores da Monarquia Brasileira e constru\u00edram a Estrada de Ferro Curitiba \u2013 Paranagu\u00e1, obras portu\u00e1rias no Rio de Janeiro e Santos, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de Joaquim Nabuco, de Machado de Assis e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, os irm\u00e3os Rebou\u00e7as foram representantes da classe m\u00e9dia negra no Segundo Imp\u00e9rio e uma das vozes mais importantes em defesa da aboli\u00e7\u00e3o. Eles eram representantes da vis\u00e3o reformista e progressista da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre setembro de 1882 e fevereiro de 1883, Rebou\u00e7as permaneceu na Europa, retornando ao Brasil para dar continuidade \u00e0 campanha pela aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, veio tamb\u00e9m a queda do imp\u00e9rio, e, assim, em 1889, Andr\u00e9 Rebou\u00e7as embarcou, juntamente com a fam\u00edlia imperial, com destino \u00e0 Europa. Por dois anos, ele permanece exilado em Lisboa, como correspondente do&nbsp;<em>The Times<\/em>&nbsp;de Londres. Transferiu-se para Cannes, onde permaneceu at\u00e9 a morte de Pedro II em 1891.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1892, Rebou\u00e7as aceitou um emprego em Luanda, onde permaneceu por 15 meses. A partir de meados de 1893, residiu em Funchal, na Ilha Madeira, at\u00e9 sua morte no dia 09 de maio de 1898. Os irm\u00e3os Rebou\u00e7as foram homenageados com t\u00fanel no Rio de Janeiro, al\u00e9m de avenidas em S\u00e3o Paulo, Curitiba entre outras cidades brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>O engenheiro&nbsp;<strong>Teodoro Sampaio<\/strong>, nasceu em Santo Amaro, Bahia, e se graduou em 1877 na Escola Polit\u00e9cnica do Rio de Janeiro. Ap\u00f3s a formatura juntou recursos para comprar a carta de seus dois irm\u00e3os, participou da funda\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica e do Instituto Geogr\u00e1fico de S\u00e3o Paulo, al\u00e9m de ter ocupado o cargo de engenheiro da Comiss\u00e3o Geol\u00f3gica e Geogr\u00e1fica de S\u00e3o Paulo. Foi respons\u00e1vel por obras de saneamento em diversos estados brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Bahia fundou o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico da Bahia e a Academia Baiana de Letras e implantou os sistemas de abastecimento de \u00e1gua em Salvador. No Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do Brasil, implantou sistemas de abastecimento de \u00e1gua em v\u00e1rios bairros. \u00c9 considerado o primeiro ge\u00f3grafo e engenheiro de saneamento do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O engenheiro&nbsp;<strong>Ant\u00f4nio Joaquim de Souza Carneiro<\/strong>&nbsp;iniciou precocemente a sua carreira universit\u00e1ria. Nos anos seguintes \u00e0 sua efetiva\u00e7\u00e3o na Polit\u00e9cnica, Souza Carneiro se dedicou com afinco ao ensino das disciplinas de Geologia e \u00e1reas afins e ao estudo da diversidade natural e mineral do estado da Bahia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O esfor\u00e7o resultaria numa primeira leva de trabalhos t\u00e9cnicos que colocaria seu nome em evid\u00eancia na vida p\u00fablica e intelectual brasileira. Entre os trabalhos mais significativos est\u00e3o algumas pequenas monografias sobre variedades de mam\u00edferos, insetos, moluscos, madeiras \u201cde constru\u00e7\u00e3o\u201d e toda esp\u00e9cie de plantas ole\u00edferas e medicinais. Destaca-se, especialmente, o volume \u201cRiquezas Minerais do Estado da Bahia\u201d&nbsp;(1908), estudo que rendeu ao autor o Grande Pr\u00eamio da Exposi\u00e7\u00e3o Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro como parte das comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da abertura dos portos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1912, com a elei\u00e7\u00e3o de J. J. Seabra, Souza Carneiro \u00e9 nomeado para Engenheiro-Chefe da Comiss\u00e3o Geogr\u00e1fica e Geol\u00f3gica do Estado, Chefe de Estudos da Rede Baiana de Ferro e, por fim, Superintendente dos Servi\u00e7os de G\u00e1s e Eletricidade de Salvador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1932, ao ser aposentado \u00e0 for\u00e7a por motivos pol\u00edticos, passaria a morar no Rio de Janeiro, conseguindo obter a c\u00e1tedra de Estat\u00edstica na Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, da Universidade do Distrito Federal. Em 1937 retornou \u00e0 Bahia e conseguiu reaver a sua c\u00e1tedra na Escola Polit\u00e9cnica da Bahia, falecendo em 1942. Ant\u00f4nio Joaquim \u00e9 pai do falecido senador carioca e baiano de nascimento Nelson Carneiro e av\u00f3 da ex-deputada carioca Laura Carneiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A engenheira civil&nbsp;<strong>Maria Jos\u00e9 Salles<\/strong>, nascida em Juiz de Fora, Minas Gerais, \u00e9 graduada em Engenharia Civil na Universidade Federal de Juiz de Fora, Mestra em Saneamento Ambiental e Doutora em Ci\u00eancias pela ENSP da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz. Pesquisadora e Professora Titular do Departamento de Saneamento de Sa\u00fade Ambiental da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da FIOCRUZ. Maria Jos\u00e9 tem v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es e trabalhos t\u00e9cnicos na \u00e1rea de saneamento ambiental. Foi a primeira mulher negra diretora da Federa\u00e7\u00e3o de Sindicatos de Engenheiros e do Clube de Engenharia de Juiz de Fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Engenheiro Civil&nbsp;<strong>Areobaldo Oliveira Aflitos<\/strong>, Nascido em Salvador, Bahia, \u00e9 graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Geotecnia pela Universidade Federal da Para\u00edba, Professor Titular da Universidade Estadual de Feira de Santana, Engenheiro pesquisador do CEPED. Autor de diversos projetos e obras na \u00e1rea de Geotecnia, Barragem, Obras Vi\u00e1rias, Estabiliza\u00e7\u00e3o de taludes e encostas, Adutoras de Pedra do Cavalo entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Engenheiro eletricista&nbsp;<strong>Caiuby Alves da Costa<\/strong>&nbsp;nasceu em Niter\u00f3i (RJ), formando-se em Engenharia El\u00e9trica em 1965 na Escola de Engenharia da UFF, veio para Bahia em janeiro de 1966, pela Petrobras. Cursou Engenharia de Equipamentos, no ent\u00e3o CENAP, na Escola Polit\u00e9cnica da UFBA. Trabalhou na Petrobras e ap\u00f3s na COELBA, SAER, Cimento Salvador, Pneus Tropical, e CEPED. Participou ativamente nas diversas atividades de Engenharia, como consultor aut\u00f4nomo. Lecionou em diversos cursos tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1978 foi para a Fran\u00e7a onde cursou Especializa\u00e7\u00e3o em Energia El\u00e9trica na&nbsp;<em>\u00c8cole Superieure d\u2019Electricit\u00e9<\/em>&nbsp;(SUPELEC) e Doutorado na Universidade de Paris XI. Retornou \u00e0 Bahia no final de 1983, reingressando no CEPED e, posteriormente, na Escola Polit\u00e9cnica da UFBA, onde lecionou at\u00e9 sua aposentadoria compuls\u00f3ria<\/p>\n\n\n\n<p>Academicamente, desenvolveu atividades de pesquisa, ensino e gest\u00e3o tendo sido Diretor da Escola Polit\u00e9cnica; membro de Comiss\u00e3o de Avalia\u00e7\u00e3o do MEC-SESU, quando visitou v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds; Vice-presidente da Sociedade dos Engenheiros de Petr\u00f3leo do Rec\u00f4ncavo; Diretor do Senge-BA, Conselheiro do Crea-BA, da FEP e da APUB<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu \u201cAs T\u00e9cnicas, a Engenharia e Tecnologia no Brasil atrav\u00e9s da sua Hist\u00f3ria: Uma vis\u00e3o sint\u00e9tica 1500 \u2013 2000\u201d, obra n\u00e3o publicada, e livros sobre a Escola Polit\u00e9cnica da Bahia, uma biografia: \u201cArlindo Fragoso: O Construtor de Futuros\u201d e, \u201cNovos Mitos e Velhas Realidades\u201d. \u00c9 co-autor de \u201c\u00c1gua de beber Camar\u00e1\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes profissionais no seu tempo e \u00e9poca foram importantes na constru\u00e7\u00e3o da Engenharia Nacional e s\u00edmbolo de compet\u00eancia e efici\u00eancia para presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Ubiratan Felix \u00e9 Engenheiro e Professor do IFBA <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Ubiratan Felix Neste 20 de novembro \u00e9 importante fazer uma reflex\u00e3o sobre o processo de extin\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra no Brasil. 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