{"id":46617,"date":"2023-12-04T15:30:13","date_gmt":"2023-12-04T18:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/apub.org.br\/?p=46617"},"modified":"2023-12-04T16:28:24","modified_gmt":"2023-12-04T19:28:24","slug":"despreconceituosamente-eu-vou-vivendo-a-minha-vida-mateus-aleluia-recebe-comenda-ubiratan-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/apub.org.br\/siteantigo\/despreconceituosamente-eu-vou-vivendo-a-minha-vida-mateus-aleluia-recebe-comenda-ubiratan-castro\/","title":{"rendered":"Despreconceituosamente, eu vou vivendo a minha vida: Mateus Aleluia recebe comenda Ubiratan Castro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Apub Sindicato entrega comenda Ubiratan Castro ao mestre Mateus Aleluia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo dia 30, encerrando o Novembro Negro, os alab\u00eas soaram no audit\u00f3rio da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e os clarins abriram caminho para a entrada do mestre Mateus Aleluia. Certamente, desde 1891, a faculdade j\u00e1 foi palco de in\u00fameras homenagens a ilustres personagens baianos, mas talvez, nenhuma como essa a Seu Mateus.<\/p>\n\n\n\n<p>A cerim\u00f4nia, ao mesmo tempo, lan\u00e7ou e fez a entrega da Comenda Ubiratan Castro, concedida pela Apub \u2013 Sindicato dos Professores das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior da Bahia. Ubiratan Castro, egresso daquela faculdade, foi professor da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancia Humanas da UFBA e um dos fundadores do Centro de Estudos Afro Orientais (CEAO). Faleceu em 2013, aos 64 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo como homenageados do dia o professor doutor Ubiratan e o mestre Mateus, a cerim\u00f4nia n\u00e3o podia seguir os ritos comuns \u00e0quele espa\u00e7o de tradi\u00e7\u00f5es europeizadas. Logo ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o da mesa, Ponciano de Carvalho, professor do departamento e diretor Acad\u00eamico da Apub, convidou a ialorix\u00e1 Gilmara Santos para abrir a cerim\u00f4nia. Pedindo ag\u00f4 a Orix\u00e1 e a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos mais velhos, m\u00e3e Gilmara pediu para os alab\u00eas tocarem para Ox\u00f3ssi, dono das quintas-feiras, como aquele dia 30.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 assim, ent\u00e3o, se iniciaram os discursos e sauda\u00e7\u00f5es de praxe. Mais adiante, o audit\u00f3rio lotado ainda ouviu a voz forte de Matilda Chaves cantar duas m\u00fasicas dos Tinco\u00e3s, uma para Nan\u00e3, dona do Or\u00ec de mestre Mateus Aleluia, e outra para Obalua\u00ea, senhor do Or\u00ec de Ubiratan Castro.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/94f00c5a07c00d8223ef3973cd0d8e11.jpeg\"><br><strong>Barbara e Maria da Gl\u00f3ria, filha e vi\u00fava de Ubiratan Castro, recebem homenagem da Apub \/ Alfredo Portugal<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Novembro Negro<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu discurso, Ponciano de Carvalho ressaltou que a institui\u00e7\u00e3o da comenda e a entrega desta ao mestre Mateus Aleluia, na Faculdade de Direito, n\u00e3o se prestam ao apagamento ou esquecimento do racismo presente marcadamente na sociedade brasileira. \u201cO racismo \u00e9 desnutri\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo, de viver. O racismo \u00e9 pun\u00e7\u00e3o de morte. Mas ele n\u00e3o pode nos matar enquanto lutamos, vivemos e amamos\u201d, pontuou.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o diretor Acad\u00eamico da Apub, menos de 10% dos professores daquela faculdade s\u00e3o negros. Ele ainda destacou que as cotas raciais para ingresso nas universidades t\u00eam sido importante instrumento para \u201cpintar um pouco mais de preto\u201d os corredores das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mas isso ainda n\u00e3o se reflete no corpo docente. No pa\u00eds, neste momento, dentre as 302 institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino superior h\u00e1 apenas oito reitores negros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntendemos que o simb\u00f3lico do mestre Bira e de seu Mateus \u00e9 um lugar poss\u00edvel de buscar a mudan\u00e7a para a sociedade democr\u00e1tica e antirracista. Um lugar de den\u00fancia grave, dura, mas doce. Vigorosa, mas po\u00e9tica. Um verdadeiro paradoxo da cr\u00edtica que impulsiona a vida e a sedu\u00e7\u00e3o para a luta\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu discurso, entre risos e l\u00e1grimas, Marta L\u00edcia, presidente da Apub, amiga e ex-aluna de Bira, lembrou que dar \u00e0 comenda o nome de Ubiratan Castro era homenagem \u00f3bvia. \u201cA gente precisava dizer para todos aqui presentes, neste Novembro Negro, o quanto para n\u00f3s, esse professor \u00e9 inspirador. Nos inspira, com sua luta antirracista, com a defesa nas a\u00e7\u00f5es afirmativas, com a hist\u00f3ria contada da Bahia e do Brasil, a partir de uma perspectiva dos negros e negras, dos trabalhadores, dos sertanejos, assim como ele sempre relembrava e reavivava\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/72f085fc53be948067a8b2b3a458cfbf.jpeg\"><br><strong>Da esquerda para a direita: Ponciano de Carvalho, diretor Acad\u00eamico da Apub; Penildon Silva, vice-reitor da UFBA; Mateus Aleluia; e Wlamyra Albuquerque, superintendente de Assuntos Internacionais da UFBA \/ Alfredo Portugal<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Mestre Mateus Aleluia<\/p>\n\n\n\n<p>Outra homenagem \u00f3bvia, destacou Marta, era fazer a entrega da primeira comenda ao mestre Mateus Aleluia. Como bem descreveu o professor Ponciano: \u201cSeu Mateus canta a do\u00e7ura de uma ancestralidade viva em todos n\u00f3s. Tudo em seu Mateus \u00e9 for\u00e7a, f\u00e9, trabalho e amor, muito amor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em Cachoeira, em 1943, Mateus tornou-se um \u00edcone n\u00e3o apenas da m\u00fasica, mas de toda a cultura negra baiana e brasileira. Na d\u00e9cada de 1960, ele chega aos Tinco\u00e3s, grupo que reunia outros cachoeirenses ilustres, como Dadinho, com um repert\u00f3rio inspirado nos c\u00e2nticos sagrados do candombl\u00e9 e sambas de roda. Em seu discurso, mestre Mateus fez quest\u00e3o de afirmar que aquela homenagem se estendia aos demais Tinco\u00e3s, especialmente Dadinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Mateus compartilhou a homenagem tamb\u00e9m com todo o povo negro brasileiro. \u201cRepresento aqui a massa humana que atravessou esse Atl\u00e2ntico, h\u00e1 s\u00e9culos atr\u00e1s\u201d, disse. E ressaltou que esse povo, hoje efetivamente brasileiro, agora, enfim, pode falar e ser ouvido. \u201cA terra que nos fez calar, hoje nos ouve tamb\u00e9m\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, Mateus e Dadinho se mudaram para Angola, onde gravam o \u00faltimo \u00e1lbum do grupo. Duas d\u00e9cadas depois, de volta ao Brasil, seu Mateus contou que buscou diversos intelectuais, agentes culturais e pol\u00edticos da Bahia, para ser re-batizado em sua terra natal. Uma dessas pessoas, foi o professor Ubiratan Castro, que o recebeu no CEAO.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ressaltou o papel do professor Bira nesse processo de retorno de seu Mateus ao Brasil e \u00e0 Bahia \u2013 e de seu rebatismo. Para o mestre, o professor Ubiratan foi um de seus parceiros na busca de estrat\u00e9gias para encontrar caminhos de vencer o sil\u00eancio e o silenciamento racista. E conclamou a todos os presentes, n\u00e3o apenas o povo negro, a encontrar, agora, estrat\u00e9gias de seguir lutando, para n\u00e3o incorrer no erro de lutar contra irm\u00e3os e irm\u00e3s. \u201cSe n\u00e3o, vou viver mais 80 anos e ainda vamos estar vivendo o mesmo momento\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Mateus lembrou de companheiros negros, presentes na pol\u00edtica institucional, como Silvio Humberto e Olivia Santana que, embora eleitos, n\u00e3o tiveram uma vota\u00e7\u00e3o expressiva. \u201cE por que essa n\u00e3o ader\u00eancia de uma forma consciente a um nome como Silvio Humberto? Aquela vota\u00e7\u00e3o corresponde com nosso af\u00e3? Eu fiquei triste\u201d, questionou. E defendeu que essa n\u00e3o \u00e9 uma conversa sobre pol\u00edtica, mas sobre a realidade, que atinge tamb\u00e9m a cultura e a m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>E finalizou, afirmando que apesar de toda a luta ainda por construir, n\u00f3s somos povo de f\u00e9, emancipados antes que a emancipa\u00e7\u00e3o se concretize. \u201cN\u00f3s somos felizes. A gente sabe chorar rindo e rir chorando. N\u00f3s sabemos desinflamar as nossas almas quando ela est\u00e1 muito angustiada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ubiratan Castro<\/p>\n\n\n\n<p>Mateus Aleluia, em seu discurso, se referiu carinhosamente ao professor Ubiratan como \u201ccomunista irreverente\u201d. Assim ele era. Todos os que falaram sobre Bira nessa manh\u00e3, se lembraram de suas piadas e seu riso. E tamb\u00e9m de sua erudi\u00e7\u00e3o e generosidade com os e as estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente da Apub, Marta L\u00edcia, relembrou que ele foi um membro ilustre do sindicato, filiado em 1978, mesmo ano em que chega \u00e0 UFBA como professor. \u201cJ\u00e1 [trazia] o curr\u00edculo demarcadamente pol\u00edtico, oriundo do movimento estudantil no Col\u00e9gio Central, da Universidade Cat\u00f3lica de Salvador, onde estudou Hist\u00f3ria. E com atua\u00e7\u00e3o integrada com o movimento estudantil da UFBA, onde veio a cursar Direito nesta escola\u201d, lembrou.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Wlamyra Albuquerque, superintendente de Assuntos Internacionais da UFBA e pesquisadora permanente do CEAO, lembrou ainda que ele foi um dos idealizadores da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UFBA.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu, como todos os outros estudantes negros e negras, de periferia, da minha gera\u00e7\u00e3o estudamos na [Universidade] Cat\u00f3lica. E o mestrado era porta de entrada para a t\u00e3o desejada Universidade Federal da Bahia\u201d, contou. Anos depois, ela viria a ser diretora da Funda\u00e7\u00e3o Pedro Calmon, quando Ubiratan Castro esteve \u00e0 frente da Secretaria de Estado da Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u00e9poca, Bira convidou Mateus Aleluia para uma apresenta\u00e7\u00e3o no Pal\u00e1cio do Rio Branco. A professora doutora Wlamyra Albuquerque lembra de ter ouvido Ubiratan afirmar naquele dia: \u201cNunca mais vai ser poss\u00edvel que se ignore um personagem como Mateus Aleluia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E neste dia, seu Mateus e mestre Bira se encontraram novamente. E a voz grave de Mateus cantou a m\u00fasica de Milton Nascimento, que clama \u201c\u00c1frica, em nome de Deus, Cala a boca desse mundo, E caminha, at\u00e9 nunca mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Alfredo Portugal<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Brasil de Fato Bahia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apub Sindicato entrega comenda Ubiratan Castro ao mestre Mateus Aleluia No \u00faltimo dia 30, encerrando o Novembro Negro, os alab\u00eas soaram no audit\u00f3rio da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e os clarins abriram caminho para a entrada do mestre Mateus Aleluia. 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