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Nos últimos cinco anos aumentaram em 45% os investimentos de capital de risco em empresas do setor de educação. O dado alarmante foi comunicado por Martha Andela, dirigente da Internacional da Educação (IE), durante a mesa A educação no mundo globalizado em tempos de retrocesso, realizada na manhã desta quinta-feira, 15, no Fórum Social Mundial (FSM) 2018.

Para Marta, as grandes empresas privadas começam a ter uma influência cada vez maior nos espaços de proposição de políticas educativas, alterando a relação do Estado com o setor de educação, e com reflexos importantes para para o futuro da democracia. “Esses setores articulam uma narrativa que fala da superioridade da educação privada frente a educação pública, como se as escolas privadas tivessem maior eficiencia e melhores resultados nos processos educativos, construindo toda uma narrativa que não está respaldada pelas evidências”.

A mesa foi aberta por Fátima Silva, vice-presidenta da Internacional da Educação para a América Latina, que destacou a pesquisa global da entidade investigando a privatização e mercantilização do ensino público, com o tema Educar, não lucrar.

Já Combertty Rodrigues, coordenador do escritório regional da IE-AL, ressaltou que a lógica para resolver o desenvolvimento e as políticas sociais é dada pela aliança entre público e privado, na qual o setor público põe os recursos, e o privado lucra. “Temos que ter claro que essa campanha e a privatização da educação implica uma estratégia antissindical. Os movimentos sindicais de educação estão sendo golpeados, porque se opõem a uma reforma educativa regressiva”, afirmou o dirigente.

A presença de grande conglomerados educacionais no Quênia, país africano, foi levantada por Wilson Sossion, secretário-geral do sindicato nacional de professores do Quênia, alertando que a privatização da educação no país conta com o apoio do Banco Mundial e do Fundo Mundial Internacional (FMI).

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“Em 2009 um grupo apoiado pelo Banco Mundial e por muitos conglomerados se estabeleceu silenciosamente no Kenya. Em um curto período de tempo criaram 470 escolas no Kenya, e pretendem ter pelo menos mil escolas até 2025”, afirmou, destacando as leis sobre educação pública no país são claras, “mas o o problema é o empoderamento das autoridades que fiscalizam. Hoje conseguimos contrapor a privatização, mas se não melhorarmos a qualidade da educação, no longo prazo não vamos mais conseguir”, avisou Sossion.

Já José Oliveira, representante do sindicato de professores do Uruguay, destacou a tradição deste país latino em valorizar a educação pública como construtora de cidadania e democracia. Ele lembrou que 84% dos estudantes uruguaios hoje estão em sistemas públicos e estatais. “Nos últimos anos enfrentamos uma campanha contra a educação pública, que pretende construir a narrativa de que o público é ruim, está obsoleto, e que o privado é muito superior”, afirmou Oliveira, apontando que para contrapor este movimento, “o primeiro passo é a ação política, o segundo é gerar pesquisas, unindo academia e sindicatos.”

Em relação à Argentina, atualmente há 30% dos estudantes em escolas particulares, “número que era de apenas 7% em 1940”, afirmou Miguel Duhalde, secretário da CTERA. “Nos anos 1990 a tendência privatizante avançou, e hoje está em disputa um modelo e projeto de educação. A palavra direito está desaparecendo do léxico legal da educação e dos direitos sociais na Argentina, e este é um movimento que temos que contrapor”.

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Por sua vez o presidente do PROIFES-Federação, Nilton Brandão, ressaltou os avanços no ensino público brasileiro, em especial o aumento de alunos nas universidades, e a interiorização do ensino superior no país por meio da criação de Instituições Federais de Ensino Superior, especialmente nos pequenos e médios municípios do país. “Mas os dados destacados pelo PROIFES-Federação em diversos encontros da IEAL, mostram que o avanço privatistas foi significativo a partir de 2013, e as entidades privadas de educação, com investimento em bolsa e ações em vários países, foram os grandes beneficiados desse avanço. E com a Emenda à Constituição 95, não há como ter investimentos em educação e manter o mínimo de avanços sociais conquistados ao longo das últimas décadas”, destacou Brandão.

Já Heleno Araújo, presidente da CNTE, considerou que o ataque à democracia brasileira é na tentativa de entregar as políticas públicas para o setor privado. “O desafio nessa disputa de projeto de sociedade, que sentimos na pele nesse país, que vivemos, no governo Lula, efetiva participação social na construção de políticas sociais, agora o golpe desmonta isso”, lembrou Heleno, destacando que “a aplicação do modelo de gestão privada nas escolas públicas precisa ser combatido por todas as as entidades, que devem disputar esse projeto em cada estado, e fortalecer o polo nacional popular de educação”, concluiu.

Fonte: PROIFES-Federação