Na noite de ontem (12), o professor Valter Pomar (UFABC) conduziu o debate “Impactos do governo Bolsonaro na Sociedade Brasileira”, na Faculdade de Arquitetura da UFBA. O evento foi realizado pela Apub Sindicato, Senge Bahia e Sindipetro Bahia e é parte do projeto SOS Brasil Soberano. O presidente do Senge-BA e membro do Conselho Fiscal da Apub, Ubiratan Félix e os diretores Jailson Alves, da Apub e Átila Barbosa, do Sindipetro-BA compuseram a mesa. Participaram também a presidenta da Apub, Raquel Nery, o diretor do Senge-BA, Allan Hayama e a vice-presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA, uma das apoiadoras do evento), Eleonora Mascia.

Na abertura, Átila Barbosa destacou a necessidade de organização para o enfrentamento à pauta ultraconservadora trazida pelo novo governo; o professor Jailson Alves lembrou o assassinato de Marielle Franco, afirmando que a sociedade exige respostas; Ubiratan Félix apontou que o governo tem um viés autoritário e avesso à negociação, destacando também os recentes ataques às entidades sindicais, como a MP 873, da contribuição sindical, os ricos do “pacote anticrime” de Sérgio Moro, que pode contribuir para a criminalização dos movimentos sociais, e a prometida “Lava Jato da Educação”.

Em sua exposição, Pomar abordou a coalizão de forças que permitiu a ascensão da extrema direita ao poder, classificando o governo Bolsonaro como o resultado de uma tripla fraude: o golpe de 2016 que retirou do poder a presidenta eleita sem crime de responsabilidade; a prisão e interdição da candidatura de Lula à presidência e a manipulação através das fake News. Segundo Pomar, essa tripla fraude não é de responsabilidade apenas de Bolsonaro e seu clã, mas de uma ampla frente de forças políticas vinculadas à elite brasileira, como determinados partidos, setores médios da sociedade, cúpula militar do exército, igrejas neopentecostais, grande imprensa, operação Lava-Jato, bem como, externamente, Estados Unidos e Israel.

Desse modo, a extrema direita foi eleita, com um discurso assumidamente autoritário, que exalta crimes da Ditadura e se coloca frontalmente contra os Direitos Humanos. “Eles são muito audaciosos. O ethos deles é de bandidos que operam na linha da intimidação. Não vão ser enfrentados da maneira tradicional”, disse.

O programa que o novo governo vem implantando irá aumentar a taxa de dependência do brasil em relação as metrópoles, notadamente os Estados Unidos, e aumentar a taxa de exploração e opressão a níveis superiores da primeira onda do neoliberalismo do país. Tudo isso através de uma política ativa de supressão de direitos, redução de renda, perseguição aos sindicatos e partidos e cerceamento da liberdade de manifestação, usando o aparelho do Estado. “Eles fazem aquilo de que eles acusam a esquerda”, afirmou. Escola Sem Partido e Lava Jato da Educação são exemplos de medidas que colocam o aparato da Educação a serviço desse projeto.

Pomar destacou alguns dos principais impactos desse programa, como acentuar a desigualdade social, dependência externa e restringir ainda mais a Democracia; também, retroceder em termos econômicos, ao “fazer do país uma fazenda e uma mina a céu aberto, nos deixando na condição de periferia da periferia. O Brasil é um dos poucos países do mundo que, por ação do próprio governo, está voltando para o passado e se colocando na posição de linha auxiliar”. Esses impactos trazem ainda algumas contradições: “Os setores médios vão reduzir de tamanho e, ironicamente, a existência desses setores sempre foi um fator de estabilidade de longo prazo. A entrada dos militares na política na forma como foi feita é arriscada, porque não vai dar certo. O prestígio das forças armadas vai para o solo”. Essa situação pode gerar convulsões sociais que ameacem o próprio sistema político.  

Existem ainda algumas variáveis que podem ter efeito no andamento do governo, como a situação internacional, a unidade entre os próprios membros do governo e a ação das forças de resistência. “O nosso objetivo não é só resistir, nós temos que resistir e temos que virar o jogo”. Mas ele alerta que uma possível derrota de Bolsonaro, não significa a derrota da frente ampla que o elegeu; ele acredita que o enfrentamento pode ser um longo processo, que passa pela “capacidade de reconstruir a nossa base social na classe trabalhadora”.