Verdade: quem fala em “doutrinação” não entende o que é educação

Não por acaso, em 2013, o Fórum Econômico Mundial sinalizou as fake news como um dos grandes desafios da sociedade contemporânea em seu Relatório de Riscos Globais.

De fato, a disseminação indiscriminada da desinformação, sobretudo via aplicativos de mensagem (como WhatsApp e Telegram) e por meio de redes sociais (como Facebook, Twitter, Instagram e Youtube) coloca em xeque a opinião pública e torna-se uma espécie de arma de doutrinação ideológica.

Na “era da mentira”, um vídeo, por exemplo, com forte apelo emocional, é capaz de sentenciar que a universidade pública promove o “aparelhamento da esquerda”, que não passa de uma “fábrica de militantes” e que seus professores promovem a “doutrinação ideológica” da juventude.

São afirmações vazias sem qualquer comprovação.

Mas nesse esforço para criar uma realidade paralela, a verdade dos fatos não importa, pois elas ficam em segundo plano quando uma informação apela às crenças e emoções da massa, resultando, dessa forma, em perigosas opiniões públicas facilmente manipuláveis.

Diante desse quadro preocupante, causa apreensão e expectativa os desdobramentos para o pleito eleitoral deste ano, que deve ser marcado novamente pela polarização e por uma enxurrada de informações falsas e distorcidas no ambiente digital (mas com repercussão na vida real).

Qual a lógica disso?

Por qual motivo um campo ideológico escolheu atuar quase exclusivamente com base em mentiras?

Porque criar medos e depois transformá-los em paranoia é uma estratégia de dominação.

Vejamos o caso da pandemia de Covid-19: extremistas espalharam mentiras contra as vacinas e convenceram seus próprios apoiadores a não se vacinar. Como resultado, centenas de milhares de pessoas seguidoras dessas ideias morreram no Brasil e no mundo. Tudo isso para tentar criar uma narrativa alternativa à realidade. Eles acreditam que essa é a única forma de se manterem no poder. Mesmo que isso custe a vida de milhares de seus apoiadores.

Esses mesmos idealizadores tentam deslegitimar a ciência, a educação, a Democracia e princípios mais básicos de civilidade, como direitos sociais, humanos e civis.

O que está por trás disso tudo é a tentativa de criar uma nova cultura sem esses valores básicos que priorizam as relações humanas. Nesse sistema, é complexo identificar o quanto disso tudo é ideológico (por exemplo, uma vontade de expressar racismo, machismo, misoginia e intolerâncias diversas sem serem punidos) e o quanto disso é meramente econômico (como ganhar mais em menos tempo às custas da população).

Pela hipocrisia identificada nas práticas desses extremistas, as questões econômicas/financeiras parecem ser mais relevantes do que as ideológicas/moralistas, afinal, a maioria das coisas que eles tentam dar um verniz ideológica têm, no fundo, algum interesse econômico.

Basta perceber que na questão das armas, da mineração em terras indígenas, da venda de medicamentos ineficazes e das privatizações, há sempre alguém que vai ganhar muito dinheiro.

Por que universidade são alvo de ataques?

As universidades públicas sempre foram alvo constante de ataques de extremistas porque são uma das principais fontes de enfrentamento à desinformação (além de serem um dos espaços mais importantes para o desenvolvimento de toda a sociedade).

É por isso que os extremistas tentam apregoar o termo “doutrinação” a qualquer iniciativa que estimule estudantes a desenvolverem um pensamento crítico.

O que eles querem é que as pessoas esqueçam que educação não é o mesmo que “transmissão de conteúdos previamente selecionados”. É um processo que contribui para que as pessoas consigam desenvolver formas de pensar por si, de analisar o mundo em que vivem, de questionar a sociedade e de propor alternativas que acabem desagradando os interesses daqueles que desejam que tudo permaneça sempre como está.

Na era da opinião sobre o fato (na qual “achismos” se tornam “verdades absolutas”), não é possível construir uma nação democrática e promover discussões saudáveis sem que as pessoas saibam, realmente, o que é verdade.

A verdade existe com base no conhecimento. E as universidades públicas são a principal fonte de produção de conhecimento científico do Brasil.

Nesse cenário preocupante, as fake news, além de confundir, manipulam e fazem do debate, que deveria ser rico em ideias, palco para um duelo interminável de opiniões agressivas e sem espaço para análise ou reflexão.

Nesse momento de desmonte da universidade pública, diante de cortes orçamentários graves que colocam em risco as condições mínimas de funcionamento de seus campus e laboratórios, se propaga a ideia de que são ambientes de organização política “da esquerda”, “imorais” e que vão contra a “família brasileira” (seja lá qual interpretação se pretende dar a esse termo).

É uma deturpação que coloca em risco um dos mais importantes alicerces do nosso país e ainda serve para tirar de foco os verdadeiros problemas do país: fome, miséria, desemprego, inflação, violência e o desalento que tomou conta do país nos últimos anos.

Os discursos vazios, propostas apenas para reforçar as bolhas de ódio e ignorância, ameaçam inclusive conquistas importantes, como a Lei das Cotas, que sempre é alvo de ataques de militantes racistas que apoiam o governo de Jair Bolsonaro (coincidência?).

O fenômeno das fake news e sinalizam a necessidade da busca constante por fontes de informação sérias, isentas e imparciais. Nesse contexto, a valorização da universidade e do reconhecimento de sua existência como produtora do conhecimento socialmente referenciado é essencial e deve ser enaltecido.

O compromisso com a verdade será um divisor de águas para o futuro da educação e de toda a sociedade. Só assim teremos uma população, de fato, capaz de transformar realidades.

Fonte: APUB

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