Esperamos que a Comissão Nacional da Verdade esclareça a morte de Anísio Teixeira

Por Professor João Augusto de Lima Rocha, membro da Comissão Milton Santos da Memória e Verdade da Ufba e do Conselho Curador da Fundação Anísio Teixeira

Hoje, 11 de março de 2014, completam-se 43 anos do desaparecimento do mais importante educador brasileiro Anísio Teixeira. Tem-se, agora, sólidas informações reunidas que indicam ter ele sido assassinado, ao invés de ter chegado à morte em consequência de acidente num elevador, no Rio de Janeiro. Tudo indica que foi sequestrado e detido para interrogatório em instalação militar situada naquela cidade. O roteiro de Anísio, antes do possível assasinato, parece ter sido muito semelhante ao que foi imposto ao deputado Rubens Paiva, cassado em 1964, e também desaparecido em 1971.

A Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro acaba de esclarecer cabalmente que era falsa a versão oficial sobre a morte de Rubens Paiva, desaparecido em 21 de janeiro de 1971, um mês e meio antes do ocorrido com  Anísio Teixeira.

Em depoimento à Comissão da Verdade carioca, dado em novembro passado, o coronel reformado Raymundo Ronaldo Campos, revelou que eram falsas as investigações oficiais, feitas durante o período militar, que concluíram sobre a fuga de Rubens Paiva de um quartel, na zona norte do Rio. A história oficial dizia que o deputado teria sido resgatado em uma curva, por um grupo de guerrilheiros, quando era levado por militares para reconhecer uma casa suspeita.

A história montada 43 anos atrás tinha muitas incoerências e a família de Rubens Paiva nunca desistiu de procurar a verdade. “Era muito notório que era uma farsa. Era muito mal feita, inclusive. Durante muitos anos, décadas, a gente está tentando provar que foi uma mentira”, afirma o escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do político assassinado.

Rubens foi visto pela última vez com vida pelo médico Amílcar Lobo que  esteve envolvido com o atendimento de presos torturados no DOI-CODI. Ao médico cabia verificar, segundo confessou, se os presos teriam condições de continuar a ser torturados, sem o risco de vir a óbito. Portanto, o médico deu a primeira pista para o que agora se comprova, com o depoimento do coronel reformado Raymundo Ronaldo Campos, que diz ter recebido ordens de incendiar um carro  e, assim, “justificar o desaparecimento de um prisioneiro”. O coronel afirmou que jamais conheceu Rubens Paiva e que só foi informado de que “a pessoa que deveria estar no carro morreu no interrogatório.” Segundo o depoimento, a ordem de montar a farsa partiu do oficial Francisco Demiurgo Santos Cardoso, que na época era major.

Fica a sugestão de um novo depoimento de Raymundo Ronaldo Campos, em que possa contribuir com a identificação de outros detidos que estiveram sob interrogatório nas instalações da Aeronáutica, no Galeão, por onde passaram Stuart Angel Jones (também assassinado sob torura), Rubens Paiva e, provavelmente, Anísio Teixeira, num espaço de 4 meses, entre janeiro e maio de 1971.

Não pode continuar a vigorar o falso entendimento de que a investigação das  torturas e dos assassinatos, no período da ditadura, é responsabilidade de civis que desejam punir militares. Há tanto militares que não se envolveram, quanto há civis, tal como o médico Amícar Lobo, que se envolveram em covardes atitudes de repressão política, a cargo do Estado. Cabe, pois, aos militares, tais como o coronel reformado Raymundo Campos, a contribuição de trazer a verdade sobre o período da ditadura.

O caso de Anísio Teixeira é singular, porque não se tratava de um militante partidário e, em razão disso, poderia levar a crer que não fosse julgado um inimigo do regime. Cabe lembrar, no entanto, que foi aposentado compulsoriamente, em 1964, pelo regime militar, no auge de seu trabalho de educador, quando era Reitor da Universidade de Brasília e dirigia a Capes e o Inep.

Quando desapareceu, em março de 1971, estava prestes a entrar para a Academia Brasileira de Letras, posição privilegiada para, caso quisesse, exercitar a oposição ao governo, durante a fase mais dura do governo Médici. O esclarecimento de sua morte confirmará a certeza de que a luta pela educação pública universal, gratuita e de qualidade, razão de sua vida, não coaduna com as trevas  que chegam no bojo dos golpes contra a democracia.

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