“Não vamos consolidar a democracia sem combater o racismo”, afirma Pró-reitora da UFBA em debate na Apub

Encerrando o ciclo de debates preparatórios para o XIII Encontro Nacional do PROIFES – o primeiro tratou da conjuntura nacional e o segundo sobre educação pública – a Apub recebeu em sua sede as professoras Paula Barreto (FFCH/UFBA, coordenadora do grupo de Pesquisa A Cor da Bahia), Delcele Queiroz (Uneb, coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação, Desigualdade e Diversidade) e a pró-reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da UFBA, Cássia Maciel, que debateram sobre as mulheres negras na universidade. A mesa foi coordenada pela diretora financeira da Apub, professora Leopoldina Menezes, que faz parte do Grupo de Trabalho Direitos Humanos: Raça/Etnicidade, Gênero e Sexualidades do sindicato. Ela abriu o debate lembrando que o evento foi também pensado em alusão ao 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.

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Em suas exposições, Paula Barreto e Delcele Queiroz abordaram questões mais relacionadas à pesquisa. Paula expôs sua experiência na área de políticas de ações afirmativas, que vem desde os anos de 1990, através do seu grupo de pesquisa; o tema de gênero chegou um pouco mais tarde em sua carreira, a partir do dossiê “Feminismo e antirracismo”, publicado em 2015 na Revista Brasileira de Ciência Política. “A ideia era justamente levar um pouco adiante essa abordagem interseccional”, disse. Entretanto, o principal obstáculo encontrado no trabalho foi a ausência de dados sobre a distribuição segundo a cor da população docente. Diante disso, ela tem acompanhado diversas pesquisas qualitativas que trabalham nessa interseção; como exemplo, estudos de análise de trajetórias de mulheres que construíram carreira na academia e evidenciam, ainda, a dificuldade que essas professoras têm em alcançar posições de valorização e prestígio, especialmente em áreas tradicionalmente masculinas. Outro ponto levantado por Paula é o pouco espaço para refletir sobre a visualidade e como as diferentes pressões de “adequação” que as mulheres sofrem também incluem sua aparência física, como o cabelo e estilo. Entretanto, ela ressalta que é importante documentar também trajetórias de sucesso: “não queremos divulgar a imagem das mulheres negras somente como estigmatizadas”, diz. Além disso, segundo ela, é necessário levar em conta a grande diversidade existente entre essas mulheres, uma vez que as negras de pele clara, por exemplo, passam por experiências diferentes das mulheres pretas: “temos que enfrentar essa complexidade; somos uma população heterogênea e as pesquisas qualitativas têm que lidar com essas sutilezas”, afirmou.

Ainda em relação à pesquisa, porém focando nas experiências estudantis, a professora Delcele apresentou uma série de pesquisas desde antes da implantação das ações afirmativas. Explicou que, nessa época, havia quase paridade numérica entre homens e mulheres na universidade, porém não nos cursos considerados mais prestigiados, e as mulheres que se autodeclaravam pretas estavam ainda menos representadas. “As mulheres pretas estavam ausentes em 15 cursos da universidade”, disse. Após a política de cotas, ocorre uma elevação na presença das mulheres negras em geral, mas por conta das autodeclaradas “pardas”. “As mulheres pretas seguiram numa posição muito desfavorável; sobre elas, continua recaindo essa desvantagem”, afirmou. Ela encerrou com a leitura de vários depoimentos recolhidos por uma pesquisa mais recente, que investigou o cotidiano das mulheres negras que ingressaram na universidade, a partir da política de cotas, em cursos considerados de alto prestígio, como Medicina e Direito. Os depoimentos evidenciavam os variados obstáculos cotidianos enfrentados por essas estudantes, desde “brincadeiras” com seus cabelos até dificuldades na permanência e no acesso aos materiais didáticos. “Mas também fica muito claro na fala delas essa resistência”, destaca Delcele.

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Retomando o tema da interseccionalidade, a pró-reitora Cássia Maciel expôs a importância de não se priorizar uma identidade sobre outra: “nós não podemos dizer que existe uma primazia de classe sobre raça ou de raça sobre classe. Essas identidades são interseccionadas e essa concepção é importante para a gente fazer o debate, porque no contexto das ações afirmativas volta-se a questionar se a política é para pobres ou para negros; talvez de alguma forma, a ideia de uma primazia de classe esteja deixando um pouco opacas as nossas avaliações”, disse. Ela também abordou questões relacionadas aos “lugares marcados” para as mulheres negras, e como elas precisam lidar com a cobrança excessiva e a necessidade de fazer muito mais para, em contrapartida, receber menos reconhecimento. Mesmo fora do âmbito universitário, ainda é preciso lidar com a divisão do trabalho doméstico ou com o abuso físico ou psicológico: “a entrada na universidade tem sido um gatilho para o início de um ciclo de violência ou para o aprofundamento de ciclos já existentes. Nós estamos discutindo com a Secretaria de Políticas para Mulheres a inserção da UFBA na rede de combate à violência contra a mulher, pelo menos como órgão notificador”. E ao relatar suas próprias experiências, Cássia refletiu sobre o apagamento dos discursos e a invisibilidade enfrentada pelas negras. “A invisibilidade significa uma negação, uma incapacidade política e cognitiva de entender que qualquer espaço de poder pode ser ocupado por uma mulher negra”.

No momento da participação da plateia, a presidenta da Apub, Luciene Fernandes chamou a atenção para o pouco debate racial e de gênero existente em espaços sindicais e a importância da discussão desses temas na Apub. A professora Sílvia Lúcia Ferreira (Enfermagem/UFBA) também lembrou como o feminismo já colocava que a construção democrática passava necessariamente pela autonomia e empoderamento das mulheres, e como a raça estrutura a classe no Brasil. Essa questão foi reforçada pelas palestrantes em suas palavras finais: Paula Barreto rejeitou a nomenclatura “pautas identitárias”, pois já as coloca em um local secundário; Delcele colocou: “as questões que atingem as mulheres, os negros, são coisas particulares? Não. Quando esses grupos são atingidos, toda a sociedade brasileira também é”. E Cássia completou apontando como a conjuntura atual atinge as mulheres negras e afirmou que “não vamos consolidar a democracia sem combater o racismo”. Por fim, deixou a pergunta: “qual o papel do mito da democracia racial para o desenvolvimento desse país?”.

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