Em debate na reitoria, Jessé Souza analisa as condições históricas e sociais que levaram ao golpe

Uma sociedade forjada na escravidão, uma ideia de sistema político irremediavelmente corrompido, um judiciário politizado e uma mídia monopolizada e conservadora: em linhas gerais, foram essas condições que permitiram que a trama do impeachment de Dilma Rousseff se desenvolvesse, de acordo com o professor, sociólogo e escritor Jessé Souza. Ele esteve nesta quarta-feira (10) no salão nobre da Reitoria da UFBA para falar sobre o seu novo livro “A radiografia do golpe: entenda como e por quê você foi enganado”. O evento foi organizado pela UFBA, Apub e Comitê UFBA em Defesa da Democracia, com o apoio das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

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Ao abrir o evento, o reitor da UFBA, João Salles alertou para o corte de cerca de 18% no orçamento de custeio das universidades para 2017, planejado pelo governo interino. Representando o Comitê UFBA, a professora Celi Taffarel informou que já existem mais de 80 comitês em defesa da democracia nas universidades brasileiras e convocou os/as presentes a participarem do Dia Nacional de Paralisação no dia 16 de agosto.

Em sua exposição, Jessé Souza defendeu que, ao contrário da noção popularizada, a corrupção brasileira não é uma herança da colonização portuguesa, mas sim produto de uma sociedade forjada pelo sistema escravocrata, que deixou heranças profundas nas classes alta e média. “As contradições da escravidão continuam até hoje”, disse ele. Em parte porque não há na sociedade brasileira o hábito de um exame crítico da sua História: “não criticamos o passado porque nunca assumimos esse passado como nosso”, explicou. É desse “molde” da escravidão, disse Jessé, que deriva o sentimento de ódio ou desprezo da classe média à população mais pobre: “essa classe média que odeia os pobres, que aceita que eles sejam massacrados pela polícia, é herança escravocrata – que aceita que exista uma ‘sub-gente’”.

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Diante disso, o discurso do combate à corrupção – fácil de se ser difundido através da grande mídia conservadora – dá um verniz de racionalidade ao ódio de classe, calcado no medo de um grupo historicamente privilegiado ao perceber que outros têm a possiblidade de frequentar espaços e alcançar lugares antes exclusivamente seus. “O fascismo manipula as emoções numa pseudo-racionalidade e alimenta o sentimento dessa classe média escravocrata”.

Ainda sobre a corrupção, o professor destacou a responsabilidade da Universidade e da própria esquerda em ajudar a associá-la à imagem do Brasil, uma vez que, segundo ele, essa associação foi feita pelos pensadores do país e posteriormente difundida através da imprensa. “A raiz do que vivemos hoje foi sedimentada pela esquerda, dentro da universidade”, afirmou.

Outro ponto levantado no debate foi o papel do poder judiciário. Segundo Jessé, a própria imprensa capitaneou o judiciário para suas causas; o início, teria sido ainda em 2013, com a defesa, especialmente no Jornal Nacional, da PEC 37, que retiraria o poder de investigação criminal do Ministério Público. Apontou que o judiciário capturou a agenda do Estado, na busca de seus interesses salariais e outras vantagens. Criticou o atropelamento dos procedimentos legais, fundamentais para a universalidade da justiça: “hoje a gente não sabe mais o que é política e o que é justiça”.

Após o debate, Jessé Souza falou à Apub sobre o papel da universidade, a necessidade de democratização da comunicação, reforma do sistema político e das perspectivas para 2018. Confira no vídeo abaixo:

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