*Artigo da presidenta da APUB, Raquel Nery
A gente começou 2026 sabendo o tamanho do que nos espera.
Quem está minimamente atento sabe que as forças reacionárias e antidemocráticas estão muito organizadas e avançam. O julgamento dos mandantes da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes mostrou que a criminalidade já é parte das engrenagens que movimentam o Estado brasileiro. O sobrenome do cabeça da tentativa de golpe de janeiro de 2023, agora condenado e preso, está também no nome do pré-candidato com chances reais de vencer Lula. Figuras proeminentes da instância judicial máxima que atuaram para investigar, julgar e condenar os que atentaram contra a Democracia têm agora seus nomes envolvidos num escândalo financeiro portentoso.
Num contexto em que a principal preocupação da população brasileira é a segurança pública, “Democracia” parece uma abstração distante e sua defesa, uma afetação intelectual. A luta por ela em 2026 já não contará com tantos como em 2022. No entanto, nós, docentes, ainda não esquecidos do que nos ocorreu a partir de 2016 (nem dos anos de chumbo dos quais emergimos como entidade de classe), sabemos o quanto nosso labor e as instituições em que ele se ancora é susceptível a autoritários, seus métodos e suas ideologias.
Democracia é o substrato de nossa existência, autonomia e liberdade. Deveria, por princípio, ser observada e balizar nossa conduta, principalmente no que diz respeito ao interesse coletivo, isto é, no âmbito da política (partidária, universitária, sindical etc.).
Faço esse preâmbulo para mais uma vez denunciar a insistente ação do Andes contra o PROIFES, entidade coirmã, concebida e organizada por seus pares com posições políticas divergentes. Uma ação cujos métodos antidemocráticos se sustentam em propósitos antidemocráticos, isto é, a negação da legitimidade do campo divergente para a manutenção de sua hegemonia.
Vale muito expor pela enésima vez: PROIFES é uma federação de sindicatos. Sua existência, por princípio e juridicamente, não institui qualquer obstáculo ou conflito à existência do Andes, um sindicato de abrangência agora interestadual. Sim, o Andes já foi sindicato nacional, isto é, já teve o monopólio da representação docente federal, que foi consensuado no período da redemocratização, e essa foi uma decisão coletiva. Mas esse consenso se erodiu, mesmo antes da criação do Proifes (que começou como um fórum) e várias associações/seções sindicais, discordando da condução política da luta, se desvincularam dele e, a partir da decisão de suas bases, se organizaram como sindicatos independentes. Foi do interesse desses sindicatos independentes que o Fórum se organizasse como Federação, congregando-os e incidindo de forma organizada na política nacional, naquilo que fosse pertinente, como negociações sobre carreira, salário e aposentadoria, preservando a autonomia de cada entidade para a atuação junto aos seus filiados, segundo seu contexto, culturas, demandas, enriquecendo o debate nacional com a complexidade e diversidade política que nos são próprias. Acrescento que o PROIFES, sendo uma entidade de segundo grau, tem a competência jurídica de ter, entre seus sindicatos, o próprio Andes, cujo status jurídico é o mesmo da ADUFG, ADURGS ou ADIFCE, o nosso caçula.
A principal implicação desse ordenamento institucional plural é que mais gente senta na mesa de negociação e é isso que o ANDES não aceita: a despeito dos fatos e dos dados, a entidade compreende de si mesma ser a única representante da nossa categoria, mesmo que só em 2024 (nossa lei de carreira é de 2012) ela tenha se permitido assinar um acordo com o governo. Se hoje temos direitos de carreira, fixados em lei, é obra do PROIFES, que teve a capacidade de concebê-los e negociá-los antes mesmo de ter registro sindical.
Foi depois dos anos Temer-Bolsonaro que a Federação por fim obteve seu registro (não sua legitimidade, vale dizer, que se ancora nas bases), num momento em que ANDES e SINASEFE, no centro de uma greve, repetiam em jogral que PROIFES não deveria estar na mesa de nogociação (ainda que essa exclusão subtraísse os sindicatos ali representados). A partir desse ciclo de negociações, ANDES e SINASEFE vêm ostensivamente violentando a solidariedade de classe e o respeito aos colegas com quem dividem as trincheiras da luta pela universidade pública no cotidiano. Nas semanas da greve o PROIFES sofreu violento linchamento político e moral nas redes sociais e presencialmente, considerando não apenas o que experimentamos nas assembleias, como também o histórico achincalhe em que a logo da entidade, impressa num capacho, foi posta na entrada do MGI para ser pisada pelos manifestantes em coreografia alucinada, bradando um prosaico “fora PROIFES”. Violência simbólica e real, política e de gênero, vimos igualmente em 22 de maio de 2025, em nossa tentativa de realizar assembleia de rerratificação da criação da APUB Sindicato, ato formal sob cujos efeitos, estatutários e jurídicos, atuamos até hoje. Naquela tarde no auditório da Faculdade de Direito da UFBA testemunhamos todas e todos do que a dogmatização da luta política é capaz – a começar pela violência, passando pelo uso do poder econômico, tudo acomodado sob o explícito e inegável desrespeito aos princípios da Democracia, da liberdade sindical e do pluralismo político.
É importante que se saiba que, concluída a mobilização coletiva (e sagrada) da greve, o Andes vem mobilizando seus recursos para o mais deslavado lawfare (método dos autoritários que ganhou notoriedade durante a finada Operação Lavajato) contra o PROIFES. A Federação hoje tem contra ela mais de sessenta (!) processos movidos pelo Andes nas varas federais de todos os estados do Brasil, entre eles processos contra (isto é, no CPF) de seus dirigentes. Não sabemos o quanto isso custa, mas é farta a evidência de que a guerra sindical do Andes é financiada com fidalguia. Nas últimas semanas vimos com pesar que a suspensão do registro sindical da Federação, resultado de uma das ações judiciais citadas, foi confirmada na segunda instância. A propósito, lembramos que a ação movida por um docente UFBA visando a reversão da assembleia que nos emancipou do Andes ainda tramita na Justiça, agora no TST, tendo o Andes como litisconsorte.
Voltemos ao ano de 2026, sobre cujos desafios abri este já longo arrazoado. A luta sindical tem sido fundamental para a defesa da universidade pública e da própria democracia. Mas como vamos subsistir se padecemos como se de uma doença autoimune? Por que toleramos tudo isso? Que expectativa temos de preservar a universidade pública como a conhecemos se usam os recursos da luta contra os que podem defendê-la? Os interesses do movimento docente devem ser observados seriamente e não podem ser estranhos aos/às que o sustentam.
A APUB Sindicato, em 2026, continua firme e coesa em seu propósito de atuar em favor dos interesses das e dos docentes. Reafirma, igualmente, seu compromisso com a construção de uma política sindical que represente a pluralidade e a diversidade que nos caracterizam e está solidamente representada no PROIFES Federação, com quem prosseguimos, coesos, na defesa da Democracia, do pluralismo político e da livre associação.

