APUB SINDICATO DOS PROFESSORES DAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO SUPERIOR DA BAHIA

Evento da APUB marca 55 anos da morte de Anísio Teixeira e reforça luta por memória, verdade e justiça

A sede da APUB Sindicato, em Salvador, recebeu na tarde de 12 de março o evento “Os 55 anos da morte de Anísio Teixeira: memória, verdade e justiça”, reunindo docentes, pesquisadores e representantes de instituições ligadas à educação e à memória democrática. A atividade marcou a data de falecimento do educador baiano Anísio Teixeira e retomou o debate público sobre as circunstâncias de sua morte, além de reafirmar a importância da continuidade das investigações conduzidas pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

A mesa de abertura foi composta pela presidenta da APUB, Raquel Nery; pelo engenheiro agrônomo e familiar do educador, Francisco Nelson Castro Neves; e pelo professor aposentado da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, João Augusto de Lima Rocha, pesquisador da obra de Anísio Teixeira. A ativista Diva Santana, integrante da CEMDP e prevista na programação, não pôde participar por motivos de saúde.

Ao abrir o encontro, Raquel Nery destacou que a iniciativa integra o compromisso político da atual gestão da APUB com a defesa da memória democrática. Segundo ela, discutir o caso de Anísio Teixeira é também refletir sobre a violência política do período autoritário e seus impactos sobre a educação brasileira. “Vivemos um ciclo, neste país, em que educadores foram perseguidos, exilados e mortos. Infelizmente, essa figura estruturante para o que pensamos sobre educação, universidade, escola pública foi vítima desse processo, e nós estamos aqui, hoje, para celebrar a sua memória e a sua obra”, afirmou.

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Investigação e busca pela verdade

Durante sua intervenção, Francisco Nelson Castro Neves ressaltou a importância da retomada das investigações sobre a morte do educador e explicou o papel da família no atual processo que tramita na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele lembrou que a solicitação inicial apresentada pela APUB, em 2016, não foi aceita em 2019, sob o argumento de que o pedido deveria partir de familiares. Em 2025, a família reapresentou formalmente o requerimento, possibilitando a reabertura do processo.

Para Neves, o esclarecimento do caso possui dimensão histórica e política. “Buscar a verdade sobre Anísio é reafirmar a ideia de que a educação pública, gratuita e universal é um elemento fundamental para a democracia. Suas ideias representavam uma ameaça a projetos autoritários”, afirmou. Ele também destacou aspectos da trajetória pessoal do educador, lembrando sua dedicação à vida pública e à construção de projetos educacionais voltados à sociedade.

Hipótese de assassinato

O professor João Augusto de Lima Rocha apresentou resultados de décadas de pesquisa sobre o caso e defendeu a hipótese de que a morte de Anísio Teixeira não foi acidental. Segundo o pesquisador, análises de documentos, fotografias e do laudo cadavérico indicam inconsistências na versão oficial divulgada à época. O desaparecimento de Anísio ocorreu no dia 11, enquanto, o auto de exame cadavérico, do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro atesta que sua morte ocorreu no dia 12 de março de 1971. “Hoje, nós estamos dizendo que Anísio não morreu no dia 11, ele morreu no dia 12. Isso é essencial, porque se tem mais um dia, muita coisa pode ter acontecido”, defendeu.      

Entre os elementos apresentados, Rocha destacou imagens do local onde o corpo foi encontrado e argumentou que a posição de objetos pessoais, como os óculos do educador, contraria a hipótese de queda acidental no prédio onde ele teria sido encontrado. Com base nos princípios da física e na análise das evidências disponíveis, o professor afirmou que há fortes indícios de que o corpo tenha sido colocado no local após a morte.

“O essencial já está demonstrado: ele não caiu ali. Isso abre a possibilidade concreta de que tenha sido assassinado”, afirmou Rocha, defendendo que a comissão avance na investigação para identificar circunstâncias, responsáveis e motivações.

Memória cultural e relação com a UFBA

Além do debate político e histórico, o evento também destacou a relação de Anísio Teixeira com o projeto educacional e cultural da Bahia, especialmente com a criação e consolidação da Universidade Federal da Bahia. Como parte da programação, foram apresentados depoimentos e textos de docentes ligados às artes na universidade.

O professor Juarez Paraíso, da Escola de Belas Artes, teve seu texto lido por João Augusto de Lima Rocha. Também foram exibidos depoimentos em vídeo da coreógrafa Lia Robatto, da Escola de Dança, e do professor Manuel Veiga, da Escola de Música. A professora Hebe Alves, da Escola de Teatro da UFBA, também presente na atividade, realizou a leitura de um texto do diretor e dramaturgo Carlos Petrovich.

As intervenções ressaltaram a influência do pensamento de Anísio Teixeira na concepção da universidade e na criação de espaços inovadores de formação artística e cultural na Bahia, vinculados ao projeto educacional modernizador que marcou a história da UFBA.

Confira a transmissão:

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