A APUB Sindicato entregou, nesta segunda-feira (18/05), às quatro chapas que concorrem à Reitoria da UFBA, um documento sistematizando as principais pautas docentes. O texto, entregue aos candidatos durante o segundo debate oficial, ocorrido na Faculdade de Arquitetura, foi formulado a partir da Consulta Pública realizada entre os dias 05 e 18 de maio, direcionada aos docentes da UFBA.
Com esse processo, a APUB buscou contribuir com a qualificação do debate eleitoral. “Observamos com preocupação o esvaziamento do debate público necessário para o enfrentamento das questões que nos afetam, substituído por disputas personalistas, inflamadas, não raro de caráter ofensivo […]. Esse estado de exasperação coletiva, fermentado pela dinâmica típica das redes sociais, é um indício do esgarçamento do tecido de nossas relações”, aponta trecho do documento.
Intitulado “Docência em Debate: Escuta Sindical para as eleições da UFBA”, a consulta abarcou questões que afetam as/os docentes em sua dimensão subjetiva e laboral, tanto em uma perspectiva mais ampla e de longo prazo, quanto em sentido mais imediato e local. Foram disponibilizados 14 enunciados pré-formulados, solicitando que fosse indicada a importância de cada pauta, em uma escala de 1 a 5, sendo 1 a avaliação de que o item é pouco importante e 5, muito importante. Os professores também puderam sugerir novos tópicos que considerassem relevantes.
Os resultados revelam que os desafios da Universidade Federal da Bahia (UFBA) ultrapassam a esfera financeira, exigindo uma profunda reconstrução institucional da universidade, articulando democracia, valorização do trabalho universitário, permanência estudantil, fortalecimento da pesquisa e redefinição do papel da universidade diante das transformações sociais, econômicas e tecnológicas em curso.
Universidade como Projeto de Estado em Meio à Asfixia Orçamentária
A consulta indicou uma compreensão consensual de que a universidade pública deve figurar como pilar estratégico de um projeto de Estado comprometido com o desenvolvimento científico, a soberania e a redução de desigualdades. O financiamento institucional emergiu como uma das preocupações mais urgentes, item com pontuação máxima entre 84,4% dos respondentes.
Na avaliação dos docentes, o modelo de financiamento descentralizado, tensionado pelo avanço de setores políticos contrários à valorização do serviço público, hoje compromete a previsibilidade e a capacidade básica de funcionamento das universidades federais.
Burocracia, Produtivismo e o Adoecimento da Categoria
Mais de 90% dos respondentes classificam como de alta importância as pautas ligadas às condições de trabalho, infraestrutura e simplificação administrativa.
A consulta confirma a percepção previamente sistematizada pelo movimento docente de que pelo menos três fatores acumulados afetam a saúde docente: sobrecarga de trabalho, ambiente institucional conflituoso e infraestrutura precária. As respostas espontâneas mencionam:
- sobrecarga de trabalho;
- fluxos administrativos desarticulados;
- sistemas pouco integrados;
- exigências redundantes;
- pressão produtivista;
- prazos considerados incompatíveis com as condições reais de trabalho;
- dificuldades operacionais relacionadas ao SIGAA;
- e aumento do tempo dedicado a atividades administrativas.
Os docentes dedicam parcelas crescentes de tempo a tarefas burocráticas e à pressão por produtividade. Assim, 88% dos professores associam o adoecimento físico e mental crônico a essa sobrecarga, agravada pela falta de pessoal técnico-administrativo (TAEs), cuja carreira sofre com desestruturação e falta de reposição de vagas. Além disso, 63,6% da categoria exige a simplificação urgente dos processos de progressão e promoção docente.
Combate à evasão e permanência estudantil
No levantamento, 72,7% dos respondentes avaliaram como de máxima importância as pautas relacionadas às questões socioeconômicas que alcançam a comunidade universitária. Com um corpo discente majoritariamente composto por jovens oriundos das camadas populares, a ampliação do acesso à universidade mostra-se insuficiente se desacompanhada de políticas de subsistência. Aparecem preocupações com:
- fortalecimento da permanência estudantil e combate à evasão;
- desigualdades entre unidades e campi do interior;
- necessidade de políticas permanentes de cuidado e acolhimento.
Os resultados apontam para a necessidade de se aprofundar o debate sobre o papel da universidade diante das transformações no mercado de trabalho, das mudanças tecnológicas e das demandas do desenvolvimento nacional.
Democracia institucional, relações de trabalho e valorização da comunidade universitária
Outro ponto de destaque da do documento diz respeito ao tensionamento do tecido democrático dentro dos campi. Mais de 75% dos participantes cobraram o enfrentamento rigoroso das violências institucionais, do assédio e da discriminação.
“Não são poucos os que se afastam e silenciam, em alguns casos já adoecidos, abstendo-se de incidir sobre o que lhes diz respeito diretamente. A crise da universidade é também relacional e se estende para além das grandes questões estruturais”, destaca trecho do documento.
As manifestações espontâneas apontam:
- sensação de baixa participação nos processos decisórios;
- concentração de poder;
- conflitos institucionais;
- assédio;
- discriminação;
- e enfraquecimento dos espaços coletivos de diálogo.
Também foram registradas demandas por:
- descentralização da gestão;
- fortalecimento dos mecanismos de escuta;
- criação de políticas permanentes de mediação e acolhimento;
- e revisão de práticas institucionais consideradas autoritárias.
A pauta das cotas raciais nos concursos docentes aparece como tema de grande relevância política e institucional. Mais de 80% das respostas atribuíram elevada importância ao fortalecimento das políticas antirracistas e à consolidação de mecanismos de reparação das desigualdades históricas.
Caminhos para a Reconstrução
Nas considerações finais, o documento da APUB deixa claro que o futuro da UFBA e a escolha da nova liderança institucional demandam compromissos que vão muito além da busca por verbas. “A APUB espera que a próxima reitoria assuma essas questões como prioridades permanentes, transformando os debates do processo eleitoral em oportunidade de reconstrução coletiva, diálogo institucional e fortalecimento da universidade pública e sua Democracia”, afirma o documento.
A consulta reafirma que a universidade pública permanece como espaço fundamental de produção científica, inclusão social, formação crítica e construção democrática, exigindo compromisso permanente com sua reconstrução institucional e defesa pública.
Segundo debate oficial entre chapas
O segundo debate oficial entre as chapas que concorrem à reitoria e vice-reitoria da Universidade Federal da Bahia contou com a participação das quatro chapas que concorrem no pleito: Mais UFBA (Penildon Filho e Bárbara Coelho), Somos UFBA (João Carlos Salles e Jamile Borges), UFBA Insurgente (Fernando Conceição e Célia Sacramento) e Nossa UFBA (Salete Maria e Menandro Ramos).
O debate foi estruturado em quatro blocos como no encontro anterior: apresentação das chapas, perguntas entre candidatos, respostas à comunidade acadêmica e considerações finais. Nesse segundo encontro, as chapas reafirmaram as suas propostas, ideias e visões sobre a universidade.
Entre os dias 20 e 21 a comunidade universitária participará da primeira eleição direta para a escolha, sem lista tríplice, nos termos da Lei nº 15.367/2026. A APUB celebra essa conquista como resultado de uma luta histórica do movimento sindical e da comunidade acadêmica pela autonomia universitária e aprofundamento da democracia interna.



